Sábado, 23 de Março de 2013

Não à barbarização do idioma!

Prof. José Pedro Serra (F.L.U.L., 2007) A allocução do professor José Pedro Serra da Universidade de Lisboa no forum «Onde pára e para onde vai a Língua Portuguesa» foi eloquente. Não me referi a ela aqui ha dias porque, como não tomei notas, receei não na saber transmittir como devido. A sessão foi gravada e a sua allocução, bem como as de mais, foram hoje divulgadas através da página da I.L.C.. Aqui deixo, todavia, um resumo com transcripção da maior parte de suas palavras.
  Começou o prof. José Pedro Serra por congratular-se com a sala cheia e com o excellente signal que era a muita presença de estudantes a assistir. (Não é de somenos a notada presença dos estudantes porque na notícia do acontecimento no Público ha commentarios procurando negá-la. Talvez procurem com elle justificar o chavão dos velhos do Restello...)  Referiu o professor então, á laia de introducção, o modo ignobil como foi o accôrdo orthographico lançado e approvado, a falta de reconhecimento democratico ás críticas feitas e aos motivos scientificos da sua recusa. Mencionou a dimensão da resistencia -- aqui estamos resistindo, de pé, de pé entre as ruinas se preciso fôr -- que é um signal muito positivo. Frisou que a discordancia e a acção de resistencia não são effeito de capricho mas antes se fundam em razões de ordem formal e razões de ordem material e scientifica. E disse:

  [...] Ao longo não apenas da minha formação academica, mas tambem ao longo da minha profissão como professor, fui apprendendo a escutar a palavra. Fui apprendendo a ouvir o pensamento que ella em mim faz. Quere dizer que se estabelece entre aquelle que escuta a palavra e que a pretende, não dominar, mas deixar que ella se abra e se faça pensamento, uma relação amorosa.
  Justamente, aquillo que a mim mais me choca é que -- de accôrdo com esta proposta de mau accôrdo --, aquillo em que a linguagem se transforma é alguma coisa que, embora já [desde 1911] longe seu fulgor etymologico, passa a ser uma coisa completamente vellada e escondida. Quere dizer que difficilmente podêmos encontrar os echos não apenas de uma história semantica, mas mais do que isso até, podêmo-nos encontrar cegos perante signaes que suppostamente são arbitrarios quando na verdade, ao tomá-los como arbitrarios, não estamos a ser mais do que barbaros, esquecidos de seculos de cultura que pretenderam tornar mais luminosa a palavra dicta e a palavra escripta. [Applausos!]
   [...] Este accôrdo, do meu poncto de vista, não deve ser desligado d'aquillo que occorre com a lingua portuguesa e com o ensigno da litteratura portuguesa. O que acontece é que, por uma especie de cegueira ou de modernidade miope, escrava de um sentido de efficacia tolo e parvo, de accôrdo com a qual  aquillo que nos interessa é sermos efficazes a fallar, mesmo que grunhamos em vez de fallar. Com base nessa idéa tôla e cega da efficacia pensamos que o melhor é ensignar a fazer requerimentos, o melhor é ensignar a fazer regulamentos, porque isso é a vida quotidiana, quando estupidamente, como é obvio, se alguem dominar a lyrica de Camões, ou a epopeia de Camões, não terá nenhuma difficuldade em fazer um requerimento. [Mais applausos!]
   [...] Eu não gosto que me mexam nas contas do banco, mas ainda menos gosto me mexam n'aquillo que me tece a alma e que ahi reside como um patrimonio que não é de um govêrno mas é de uma Historia que nos ultrapassa a todos. E por isso eu estou aqui tambem comvosco a dizer NÃO!


(Imagem adaptada da Europa Viva.)

Texto revisto em 25/III/013 segundo gentil suggestão do Sr. Pedro da Silva Coelho.

Escrito com Bic Laranja às 19:48
Verbete | comentar
7 comentários:
De Pedro da Silva Coelho a 25 de Março de 2013
Caro Bic Laranja,


Gostaria de aproveitar a occasião para lhe communicar o enorme appreço que nutro pelo seu cyberdiario.

Allém d'isso, tenho de confessar o quanto me agrada ver na sua prosa "a gala da translitteração greco-romana" vestindo a nossa lingua "do seu vero manto regio".

Se me permittir a indelicadeza, tomarei a liberdade de lhe chamar a attenção para a falta de um 'p' na palavra "apprendendo" no seguinte trecho: "Fui aprendendo a ouvir o pensamento que ella em mim faz". Creio, addicionalmente, que: i) "estabelecer" deveria ser graphado com 'l' unico, e não geminado, porquanto provém do latim "stabiliscĕre", de "stabilīre"; ii) que seria de preferir "poncto" (em face do latim "punctum") à forma "ponto"; e iii) que seria de preferir a forma "ensigno", porquanto provém do latim "insignio".


Com os meus melhores cumprimentos,

Pedro da Silva Coelho
De Bic Laranja a 25 de Março de 2013
Não é indelicadeza, é favor. Texto revisto.
Muito Obrigado.
De Pedro da Silva Coelho a 26 de Março de 2013
Caro Bic Laranja,


Muito obrigado por haver tomado em consideração as minhas suggestões.

Hesitei antes de voltar a escrever-lhe, porquanto me parece que estarei a ultrapassar os limites da cortesia. Decidi endereçar-lhe este segundo commentario por três razões: i) pelo muito que me agrada este seu verbete; ii) pelo intenso prazer de ler o dicto na graphia que escolheu usar; e iii) pelo grande respeito que tenho por si e pelo muito que apprendo com o seu cyberdiario.

São duas as observações que gostaria de lhe deixar, a proposito de algo que na manhã do dia de hoje, quando primeiramente li o seu verbete, me escapou:
1. Faltará um «u» no trecho «por uma especie de cegeira»;
2. A proposito da forma «falar», gostaria de lhe perguntar se prefere esta forma á forma «fallar». Como argumenta José Leite de Vasconcellos, a páginas 74 do seu opúsculo 'As «Lições de linguagem» do Sr. Candido de Figueiredo - Anályse crítica' [http://archive.org/details/asliesdelinguag00vascgoog]: «Falla vem de fallar; e fallar vem do lat. fabulare [...]. De fabulare veio *fab'lare e por fim fallar, onde o primeiro 'l' representa, por assimilação, o b,--exactamente como succedeu em 'taleira' ou 'talleira', de *tab'laria, tabularia.»

Aproveito também a occasião para deixar uma referência a Glauco Mattoso, escriptor brasileiro, caso possa ainda não ser do seu conhecimento e porque creio que lhe agradará.

Glauco Mattoso, revoltado pela imposição do AOLP90, decidiu adoptar um systema orthographico a que chamou «etymographia», o qual usa actualmente em todas as suas publicações. Para esse effeito, compôs a obra «Tractado de Orthographia Lusophona», na qual consolidou as regras da «etymographia», havendo publicado a referida, em versão *.pdf, em http://www.elsonfroes.com.br/tractado.htm. O mesmo texto está também disponível em http://correctororthographico.blogspot.pt/. Allém das suas obras litterárias, Glauco Mattoso assigna uma columna periodica intitulada «Anarchico archaico», publicada no portal C(h)ronopios e graphada segundo os preceitos da «etymographia»: http://www.cronopios.com.br/site/colunistas.asp?id_usuario=28#texto.


Esperando não haver excedido os limites da urbanidade e não haver abusado da sua paciencia, deixo-lhe os meus melhores cumprimentos,

Pedro da Silva Coelho
De Bic Laranja a 26 de Março de 2013
Em boa hora decidiu porquanto me dá notícias que, confesso, desconhecia. Inesperado um caso d'estes d'aquellas partes, por ser d'onde justamente teimam em ceifar a esmo e a eito a etymologia das palavras (conhece este absurdo?).
Da fórma «falar/fallar» guiuei-me pelo Cândido de Figueiredo de 1913. Na verdade esquecera-me a lição do Dr. José Leite de Vasconcellos, a corrigir nem mais nem menos do que... Cândido de Figueiredo. Imperdoável.
Revista a «cegueira» e o «fallar».
Obrigado.

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