Quinta-feira, 28 de Março de 2013

«Fourty four»

 Uma fotografia do Cais do Sodré no dia 5 de Outubro de 1980. Aviva-me esta bem a memória acerca da Lisboa daqueles tempos. Era assim, realmente, desmazelada e suja, com lixo espalhado sempre pelo chão. Não melhorou; primeiro porque há hoje fatalmente mais lixo; depois porque sobra agora maior empenho em elaborar rodriguinhos ambientais e campanhas recicláveis (por ajuste directo ou para adjudicar a amigalhaços) do que em recrutar almeidas e tê-los a varrer as ruas. Sendo o lixo mais, hoje, como sabeis, deu ultimamente a Câmara de Lisboa em recolhê-lo só três vezes por semana. Entretanto, ou o atulhamos em casa, ou fazemos da porta da rua uma esterqueira.


Cais do Sodré, Lisboa, 1980.
Fotografia: Biblioteca de Wood.

 Neste sítio do Cais do Sodré paravam muitos autocarros. Podeis ver aí na imagem um 45, um 44, -- cujas paragens eram ali, exactamente ali, como diria o saudoso prof. Hermano Saraiva --, um 2, e um 35 meio escondido pelo Daimler Fleetline com publicidade à Efacec, cuja paragem era mais cá, justamente no passeio onde poisa o indígena à esquerda em primeiro plano.
 Pois certa vez, por 1979 ou 80, estava eu por ali na paragem do 35 e havia um casal de turistas camones de roda da planta da rede de autocarros, apontando inúmeras vezes com o dedo e repetindo fourty four, fourty four em cada frase. O mais que diziam não o entendia, mas fourty four, fourty four era fácil: eles queriam o 44. Ora eu, mesmo sem saber amaricano, sabia justamente qual era a paragem do 44. Puxei ao senhor do casal pelo braço e disse-lhe -- Fourty four! -- fazendo-lhes o gesto de come on. E assim os guiei à paragem do 44, que era logo ali diante, como bem vedes, apontando-lhes lá, orgulhoso, a tabuleta que exibia em algarismos o número da carreira tanta vez repetido: o fourty four.
 A paga foi uma festa na cabeça e um sorridente Thank you! You're very smart (mais tarde nesse dia soube o que significava e inchei).
 O 44 apareceu num instante e, para o meu destino, que era o que calhasse, tanto dava o 35 como 44. -- Andava eu a espremer rendimento ao passo-social procurando descobrir a cidade. -- De maneira que apanhei logo ali o 44 também, levado por certa curiosidade acerca do casal de estrangeiros. Plantei-me uns quantos bancos atrás deles a ver do seu (e do meu) destino. O autocarro partiu, por alturas da Rua Augusta apareceu o condutor (o pica-bilhetes) e então assisti a um diálogo de surdos. O condutor perguntava em sonoro português: -- Para aonde? -- e a os turistas camones respondiam sabe-se lá o quê. Isto por umas quantas vezes. E então, já passados do Rossio, o homem dos bilhetes resolveu que tinha mais que fazer e decidiu-lhes o destino: -- Para o aeroporto? Muito bem! -- e rasgou-lhes do maço dois bilhetinhos de 7$50 (sete e quinhentos).
 Os turistas camones sairam no Marquês de Pombal. A viagem até lá era só 5$00 (cinco escudos). Paciência.

7$50.jpg 5$00
Bilhetes desta colecção. Planta da rede de autocarros em Cruz-Filipe, História das Carreiras da Carris.

(Texto revisto.)

Escrito com Bic Laranja às 17:53
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6 comentários:
De Paulo Cunha Porto a 29 de Março de 2013 às 09:21
Bela evocação, Amigo Bic, embora perigosa por poder dar ainda mais ideias ao Ministro Gaspar...

Quanto ao lixo, desde a Revolução de 74 até hoje, não pára de acumular, com aquele depósito maior, logo ali na zona - que devia ser nobre - de S. Bento...

Uma Santa Páscoa!
De Bic Laranja a 30 de Março de 2013 às 23:19
Acha que o lorpa das finanças lidar com cifras? Olhe que a escrita mete mais que cifras, mete cifrões, e vejo-o mui desatinado com uma coisas assim.
:)
A lixarada é exactamente assim, mas pior.
Cumpts.
De tron a 30 de Março de 2013 às 01:45
ainda sou do tempo destes bilhetes, e nunca consegui saber para que serviam os números, e gostava de saber se o amigo alguma vez soube para que serviam tantos números nos bilhetes
De Bic Laranja a 30 de Março de 2013 às 12:06
São dias de calendário. O condutor picava o número do dia da viagem. As séries dos bilhetes não se repetiam, por isso não havia confusão dum mês ao seguinte.
Cumpts.
De Marcos Pinho de Escobar a 30 de Março de 2013 às 18:53
Tempos que já lá vão... Tudo roto, imundo, um asco, ontem e hoje, bem como convém ao portugalinho das abriladas. Mas uma coisa admito: em 1980 o rectângulito era mais português do que hoje.
Grato pela lembrança. Um abraço e uma Santa Páscoa, Caro Bic.
De Bic Laranja a 30 de Março de 2013 às 19:15
Santa Páscoa, também. Obrigado!

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