Domingo, 7 de Abril de 2013

Não compro português brasileiro

  Achei o Azeite da cooperativa agrícola de Moura com um rótulo novo na prateleira do super. Estas «novidades» só no pacote, dos marketeiros, sempre me deram certo enjoo, ainda mais agora com o analfabetismo por decreto.
  Pus-me a ler o rótulo e diziam os da cooperativa que o azeite tem «caraterísticas»... Parou a leitura logo ali. Não estou para os aturar. Azeite é cousa que não falta. Em quanto a mim, nem que dêem os azeiteiros todos deste reino em escrever como analfabetos, ele sempre haverá à mão azeite espanhol. Se querem que leve a finis patriae a sério, pois bem, este é o meu método.

  Passemos ao café.


 Para já é assim. Ao depois se verá.

Adenda:

De JPG a 8 de Abril de 2013 às 11:58.
A marca Delta, do "comendador" Nabeiro, é, para ser sucinto, ortograficamente asquerosa: http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1954694&page=-1.



Imagens da Coop. Agrícola de Moura, da Nestlé (adaptada) e do supermercado Apolónia.

Escrito com Bic Laranja às 21:00
Verbete | comentar
21 comentários:
De Inspector Jaap a 7 de Abril de 2013
Apoiado! Ai se fossem todos como nós, essa gente poria fim ao, desconchavo em menos de um ápice , depois de ver as suas vendas a cair a pique!
Cumpts
De Bic Laranja a 8 de Abril de 2013
Acabado Portugal, siga o boicote à falsificação nacional. Compro espanhol.
Cumpts.
De JPG a 8 de Abril de 2013
A marca Delta, do "comendador" Nabeiro, é, para ser sucinto, ortograficamente asquerosa: http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1954694&page=-1
De Bic Laranja a 8 de Abril de 2013
Grato pela informação. Como o rótulo não me agrediu, a coisa passou. Mas se para já foi assim, ao depois já se vê o que há-de ser. Nada mais fácil do que comprar espanhol.
Cumpts.
De [s.n.] a 8 de Abril de 2013
Mas o Nescafé também sofre do maldito acordês e pespegou-o no rótulo? Por acaso compro este café há muito tempo e, talvez por habituação, ainda não tinha reparado... Tenho que investigar:)
Maria
De Bic Laranja a 8 de Abril de 2013
Sim.
Cumpts.
De SH a 9 de Abril de 2013
Consegui que a U. Michigan disponibilizasse o Caldas Aulete de 1881 online.

V1: http://babel.hathitrust.org/cgi/pt?id=nnc1.1002458373;page=root;view=1up;size=100;seq=3;orient=0

V2: http://babel.hathitrust.org/cgi/pt?id=mdp.39015028326943;seq=9;view=1up;num=915




Abraço
De Bic Laranja a 9 de Abril de 2013
Formidável!
Ficam as remissões directas:
Vol. I
Vol. II
Cumpts.
De mujahedin a 10 de Abril de 2013
Pus-me a ler o princípio do Diccionario por curiosidade, e é uma autêntica maravilha!

A parte a que chamam "Plano", onde se faz a crítica dos outros dicionários que à data existiam é deliciosa...

Por exemplo, a propósito da definição dada à palavra "Abáda" [sic]:

«Abada é o nome indiano do rhinoceronte, quadrupede da ordem dos pachidermes; sáem-lhe dos ossos do nariz uma ou duas pontas corneas, é animal herbivoro e tão estupido como pacifico, quando não o provocam, e até certo ponto domesticavel.
Roquette, classificando este animal de feroz, falta à verdade, que se deve a todos, a até mesmo aos rhinocerontes. O sr. Lacerda é ainda mais injusto contra este inoffensivo quadrupede, porque o classifica de ferocissimo.
Ambos lhe negam a sua mais illustre procedencia, que é a Asia, não obstante vir em todos os compendios de historia, que D. Manuel, entre outros donativos que fez ao pontifice, como primazia da Asia, lhe enviou uma abada, que foi o primeiro exemplar d'este animal que se viu na Europa.
Roquette, para augmentar a fealdade d'este bicho, diz que tem tromba como o javali. O rhinoceronte não tem tromba, mas sim o beiço superior maior que o inferior; isto porém não é o que em physiologia se denomina tromba. Trombudos ficariam certamente os rhinocerontes se podessem ter conhecimento das calumnias que contra elles levantaram os dois sacerdotes portuguezes.
»

Que pena não poder surripiál-o em pdf...
De mujahedin a 10 de Abril de 2013
Não resisto a transcrever mais um trecho do referido "Plano"!

Dada a seguinte definição por um dos prévios "diccionaristas" (as palavras e suas definições são apresentadas lado a lado, cada uma respectivamente definida pelos Roquette, Lacerda e Moraes, a relevante é a de Lacerda), é depois feita a a correspondente crítica:


LACERDA

ABADEJO, s.m. nome vulgar do peixe que, estando curado, se chama bacalhau. V. Badejo: - cantharida. V. Vaca-loura. É palavra mais hespanhola que portugueza.
VACA-LOURA, s.f. abadejo, insecto.
BADEJO, s.m. (lat. badare, fr. ant. bader, abrir muito a bôca); (h.n.) peixe do genero gadus de Lineu. A sua pesca mais abundante é na Terra Nova e no cabo Breton. Depois de salgado e curado chama-se-lhe bacalhau.

Lacerda apresenta duas definições para a mesma palavra, porque abadejo e badejo são o mesmo termo. A primeira definição é applicavel a qualquer peixe doente que tem a fortuna de se restabelecer. A segunda é mais explicativa: diz-nos que o badejo, segundo a sua raiz, anda sempre com a bôcca aberta, e que o bacalhau só existe quando lhe tiram a cabeça, os interiores, e o salgam e curam, que é a maneira menos racional de elle poder existir. Todavia n'esta ultima parte estão os tres diccionaristas de accordo, accordo de facil explicação, porque todos elles copiaram a definição de Rafael Bluteau, desprezando a auctoridade de Brotero, o nosso primeiro naturalista, e o uso geral, como facilmente se deprehende das phrases generalissimas oleo de figado de bacalhau, bacalhau frescal[fresco?], pesca de bacalhau, porque nenhuma d'estas phrases se póde applicar ao bacalhau salgado e curado.

(...)
O sr. Lacerda escreve Vaca-loura, insecto, com um só c; e vacca, quadrupede, com dois. Esta incoherencia só se póde explicar pela analogia que apresenta com a theoria de um celebre grammático hespanhol, que propoz que se escrevessem com lettras grandes os nomes das cousas grandes, e com lettras pequenas os das cousas pequenas; por exemplo: a perna de uma formiga com lettra pequena, e a de um elephante com lettra grande. Entre outras vantagens que allegou o illustre innovador, notava-se a de se poder conhecer, pela simples inspecção de um livro, se n'elle se tratava de cousas grandes ou de cousas pequenas.

:)

Os meus agradecimentos ao amável SH por disponibilizar tão interessante documento!
De Bic Laranja a 10 de Abril de 2013
Já tinha esquecida a introducção d'este diccionario. Fico-lhe grato por m'a recordar aqui e pelas transcripções; logo que possa tomo a liberdade de passá-las a verbete pois merecem destaque no corpo principal do blogo.
Aquelle grammatico que defendia maiuscula para cousas grandes e minuscula para cousas pequenas acabou fazendo escola, de modo que não se estranha como chegámos a onde chegámos: à machona «presidenta» ou à flácida «erecção» do caco graphico.
Cumpts.
De Marcos Pinho de Escobar a 9 de Abril de 2013
Há anos que compro o producto de Barrancos na sua versão biológica. Ainda não me tinha chegado às mãos o rótulo novo grafado no nefasto mixordês. Vou já tratar de encontrar substituto, quiçá lá para os lados da Grécia ou da Argentina.
Abraço amigo.
De Bic Laranja a 10 de Abril de 2013
Fôramos todos assim e o caco graphico não passaria, de certeza.
Abraço.
De Natã a 13 de Abril de 2013
Estranho, no Brasil se escreve: características. Nunca vi escrito "caraterísticas" em lugar algum. Não é português brasileiro não. Deve ser um neo-português de Portugal. :)
De Bic Laranja a 13 de Abril de 2013
E «facto», também sabe donde é?
De Natã a 13 de Abril de 2013
Aqui, Brasil, só aparece este "c" quando é pronunciado. Certamente, "facto" não é português brasileiro.
De Bic Laranja a 13 de Abril de 2013
«Facto» sem «c» não é portugês, ponto final. Deve ser algum neo-crioulo derivado do português.
Cumpts. :)
De Natã a 13 de Abril de 2013
é por aí :).

Mas e agora? Se a tal "caraterística" não é de Portugal e não é nem do Brasil, donde és?
De Bic Laranja a 13 de Abril de 2013
É do imortal Bichara, da Academia Brasileira de [poucas] Letras em compadrio como o Malaca Casteleiro e mais uma carrada de analfabetos à procura dum cadeirão na História, todos estes na esteira dos que vilmente cuspiram no Acordo Ortográfico de 1945.
Cumpts.
De Luís a 17 de Agosto de 2014
No Brasil grafamos "caraCterística", com "c", assim como também pronunciamos essa consoante. Portanto, essa grafia nada tem de brasileira e é coisa do tal desacordo ortográfico que, tanto quanto (a maioria de) vocês, portugueses, também abomino. E antes fosse essa a razão de não comprar o tal azeite, e não o facto deste ter qualquer coisa a ver com o Brasil - o que me soa um tanto preconceituoso quanto provinciano - para dizer o mínimo. Essa histeria toda chega a ser cómica!
De Bic Laranja a 17 de Agosto de 2014
É cômico, é um fato.
Cumpts.

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