Quarta-feira, 10 de Abril de 2013

Aulete, 1881

Aulete, 1881

 Quando há dias o benévolo leitor S.H. me procurou se sabia dalguma versão na rede da 1.ª ed. do Diccionario Contemporaneo da Lingua Portugueza (habitualmente designado por Aulete -- Lisboa, Imprensa Nacional, 1881) só lhe soube responder que não, não sabia. Dei-lhe em alternativa o Candido de Figueiredo de 1913 (menos digno de apreço) e não se deu S.H. com ele por achado, foi diligente. Tanto que no dia seguinte me trazia novas duma versão beta, como se agora diz. E ontem mesmo trouxe-me a novidade de ter conseguido que a Universidade do Michigan facultasse os dois volumes na rede. Notável labor, cujas remissões para o vol. I e vol. II podemos agora ter mais a jeito. A edição que possuo tem a encadernação um tanto cansada e assim posso poupá-la. (A propósito, tinha dito que me custara 900$00 nos anos 80, mas enganei-me; foram 950$00 e com notação do alfarrabista -- dicionario raro).
 De tê-lo há tanto ano esquecera-me já o texto de introdução (plano da obra) deste Diccionario, muito embora há dias S.H. mo houvesse referido. Pois ao leitor mujahedin despertou-lhe bem a curiosidade e, do que lá vem, avivou-me este a memória com dois passos interessantes.

« Pus-me a ler o princípio do Diccionario por curiosidade, e é uma autêntica maravilha!
 A parte a que chamam "Plano", onde se faz a crítica dos outros dicionários que à data existiam é deliciosa...
 Por exemplo, a propósito da definição dada à palavra "Abáda" [sic]:

« Abada é o nome indiano do rhinoceronte, quadrupede da ordem dos pachidermes; sáem-lhe dos ossos do nariz uma ou duas pontas corneas, é animal herbivoro e tão estupido como pacifico, quando não o provocam, e até certo ponto domesticavel.
 Roquette, classificando este animal de feroz, falta à verdade, que se deve a todos, a até mesmo aos rhinocerontes. O sr. Lacerda é ainda mais injusto contra este inoffensivo quadrupede, porque o classifica de ferocissimo.
 Ambos lhe negam a sua mais illustre procedencia, que é a Asia, não obstante vir em todos os compendios de historia, que D. Manuel, entre outros donativos que fez ao pontifice, como primazia da Asia, lhe enviou uma abada, que foi o primeiro exemplar d'este animal que se viu na Europa.
 Roquette, para augmentar a fealdade d'este bicho, diz que tem tromba como o javali. O rhinoceronte não tem tromba, mas sim o beiço superior maior que o inferior; isto porém não é o que em physiologia se denomina tromba. Trombudos ficariam certamente os rhinocerontes se podessem ter co
nhecimento das calumnias que contra elles levantaram os dois sacerdotes portuguezes.


 Não resisto a transcrever mais um trecho do referido "Plano"!
 Dada a seguinte definição por um dos prévios "diccionaristas" (as palavras e suas definições são apresentadas lado a lado, cada uma respectivamente definida pelos Roquette, Lacerda e Moraes, a relevante é a de Lacerda), é depois feita a a correspondente crítica:

LACERDA

ABADEJO, s.m. nome vulgar do peixe que, estando curado, se chama bacalhau. V. Badejo: - cantharida. V. Vaca-loura. É palavra mais hespanhola que portugueza.

VACA-LOURA, s.f. abadejo, insecto.

BADEJO, s.m. (lat. badare, fr. ant. bader, abrir muito a bôca); (h.n.) peixe do genero gadus de Lineu. A sua pesca mais abundante é na Terra Nova e no cabo Breton. Depois de salgado e curado chama-se-lhe bacalhau.

 Lacerda apresenta duas definições para a mesma palavra, porque abadejo e badejo são o mesmo termo. A primeira definição é applicavel a qualquer peixe doente que tem a fortuna de se restabelecer. A segunda é mais explicativa: diz-nos que o badejo, segundo a sua raiz, anda sempre com a bôcca aberta, e que o bacalhau só existe quando lhe tiram a cabeça, os interiores, e o salgam e curam, que é a maneira menos racional de elle poder existir. Todavia n'esta ultima parte estão os tres diccionaristas de accordo, accordo de facil explicação, porque todos elles copiaram a definição de Rafael Bluteau, desprezando a auctoridade de Brotero, o nosso primeiro naturalista, e o uso geral, como facilmente se deprehende das phrases generalissimas oleo de figado de bacalhau, bacalhau frescal[fresco?], pesca de bacalhau, porque nenhuma d'estas phrases se póde applicar ao bacalhau salgado e curado.
(...)
 O sr. Lacerda escreve Vaca-loura, insecto, com um só c; e vacca, quadrupede, com dois. Esta incoherencia só se póde explicar pela analogia que apresenta com a theoria de um celebre grammático hespanhol, que propoz que se escrevessem com lettras grandes os nomes das cousas grandes, e com lettras pequenas os das cousas pequenas; por exemplo: a perna de uma formiga com lettra pequena, e a de um elephante com lettra grande. Entre outras vantagens que allegou o illustre innovador, notava-se a de se poder conhecer, pela simples inspecção de um livro, se n'elle se tratava de cousas grandes ou de cousas pequenas.


:)

Os meus agradecimentos ao amável S.H. por disponibilizar tão interessante documento.
»

(De mujahedin em 10 de Abril de 2013.)

Escrito com Bic Laranja às 19:16
Verbete | comentar
10 comentários:
De mujahedin a 10 de Abril de 2013
Tenho pena que já se não possa encontrar a expressão da nossa língua de uma forma tão elegante sequer como a que se achava, havia cem anos, na introducção de um diccionario.

Até a fineza da ironia não admite comparação com seja o que fôr que se ache em qualquer croniqueta de folhetim moderno.

Restam-nos a nós, e à nossa língua, oásis raros como este que o caro Bic ainda vai tendo a amabilidade de nos oferecer, que além de nos permitir o luxo (pois o não é hoje em dia?) de apreciar a virtuosa expressão da língua portuguesa, permite-me a mim pelo menos sempre encontrar um poucochinho mais que aprender!

Por isso, e pelo muito que contribui através do que escreve, mas sobretudo pela maneira como escreve, para fazer rejuvenescer o meu interesse por este admirável e elegantíssimo idioma que nos legaram nossos antepassados. Por tudo, bem haja!

Que lhe não falte vigor no pulso, não para "bater punho", senão antes para empunhar habilmente a pena como o faz normalmente e que, estou certo disso, tanto prazer nos dá a nós que aqui vimos ou aqui vimos dar!
De Bic Laranja a 11 de Abril de 2013
Generosidade sua. De mais a mais quando o sumo deste verbete advém de si (e de S.H. mais a montante), tal o esquecimento em que me iam estes elegantes nacos de prosa.
Muito obrigado pelo seu gentil comentário, mas não cuido que o mereça inteiramente.
Cumpts.
De SH a 14 de Abril de 2013
Ora essa! Não custou muito. Dois e-mails depois e pronto, feito! Ainda lhes perguntei se poderiam permitir descarregar o PDF, mas aí ainda estou por obter resposta.

O que me orientou para esse dicionário foi ter descoberto, num outro blogue, a maravilhosa achega de Caldas Aulete no que toca ao conceito de ortografia. É tão actual que dá arrepios. Desde a "implementação" deste "acordo" que acordei para a "questão ortográfica" e devo dizer que, para mim, os maiores erros deram-se há um século. Agora apenas arcamos com as consequências a longo prazo e de génese em mentes de Cândidos e Carolinas Michaëlis - basicamente, as consoantes duplas desapareceram porque esta senhora não gostava delas, critério muito SCientifico, tal qual a nota explicativa do AO90. Tempos negros passa a língua portuguesa. Oxalá não se perca mais e se volte atrás onde ainda é possível.

Abraços!
De Bic Laranja a 15 de Abril de 2013
E ainda assim há cem anos eram mais estudiosos. Não se pode nunca comparar a sciencia desse outros com a indigência destes de agora.
Feita a monumental asneira era imperativo não lhe mexer mais pola não aggravar. Em quanto a mim, em 45 o caso ficou resolvido. Para pior bastava assim como bem escrevia João de Araújo Correia em 59 na sequência do Brasil ter quebrado os trautos.

«Mais uma reforma? Deus nos acuda. Cada reforma ortográfica é uma convulsão no idioma. Admite-se de século a século. De oito em oito dias, é demais... Antes brincar com fogo ou com bombas atómicas. Não há reforma ortográfica tão subtil que possa satisfazer qualquer inteligência. Todas têm defeitos. São obras humanas, eivadas de paixão, tocadas de bairrismo, não podem servir todos os intelectos. A de 1911, para mim, é a menos defeituosa. As seguintes, querendo corrigi-la, pioraram-na, principalmente a da mãi. A de 1945... Portugal perde nela, ainda hoje, o seu carácter. Mas, Deus a conserve. Outra que venha será porventura a mortalha da língua portuguesa
João de Araújo Correia, A Língua Portuguesa, Lisboa, Editorial Verbo [1959], p. 40.


Pois não tinha razão?
Cumpts.
De SH a 15 de Abril de 2013
Claramente, ao nível dos Malacas de hoje ninguém chega. Ainda assim, foi em grande parte feita como se de mais uma cor na nova bandeira republicana se tratasse. Não sou, de todo, monárquico, mas que a teimosia dos primeiros republicanos se meteu onde não devia, é facto. A alfabetização, essa, viu-se o quanto melhorou. Faltou ser-se autoritário na matéria ainda na monarquia. Aí sim, criar-se uma norma comum, ao invés das diferenças que existiam de dicionário para dicionário e que em certa forma também motivaram o que se seguiu.

Também li algures um texto curioso. O diário de um deputado brasileiro onde relata os debates sobre a nova reforma (suponho que a de 43). O desinteresse era tal que chegavam, levantavam o "incentivo", e iam-se embora. Leviandade política que até aos dias de hoje impera, seja cá ou no Brasil, não interessa. Está visto que é tudo o mesmo.

Numa nota mais caricata, se visitar a página da Wikipédia referente à Sophia de Mello Breyner , é essa a forma que pode encontrar. Digo isto porque se não fosse uma proposta minha ter sido aceite e consensualizada, ainda hoje estaria "Sofia de Melo", simplesmente porque em 2009 uma alma triste resolveu mudar. Desde 2008 para cá, ficou tudo louco. Até ao L. F. Menezes chegaram a mudar para Meneses. Desconfio que quem o fez não seja grande fã do senhor.

Abraço!
De Bic Laranja a 18 de Abril de 2013
Gabo-lhe a paciência de educar os wikipaedicos. mas gabo mesmo.
Cumpts.
De mujahedin a 16 de Abril de 2013
O que me orientou para esse dicionário foi ter descoberto, num outro blogue, a maravilhosa achega de Caldas Aulete no que toca ao conceito de ortografia.

Verdade. Também a li no diccionario, e pareceu-me muito apropriada e actual. Valeria, talvez, a pena publicar aqui no tasco.
Estive mesmo para a transcrever, mas por um lado não tinha vagar na altura, e por outro também não queria abusar da gentil hospitalidade do caro Bic. E depois esqueceu-se-me.

Mas ainda o hei-de fazer e mando-lha. Depois publica se lhe aprouver.
De Bic Laranja a 16 de Abril de 2013
Suggestão acceita. Havemos de o pôr cá.
Cumpts.
De Marta Craveiro Lopes a 9 de Novembro de 2015
Tenho os dois volumes deste dicionário em muito bom estado. Pode falar.me um pouco mais sobre eles? Obrigada
De Bic Laranja a 25 de Fevereiro de 2019
Não sei dizer muito.
Vale o que diz na introdução, que é actual ante a mortalha ortográfica de 1990, vale pela indicação phonetica das plavras.
O meu custou-me 900$00 num antiquário da R. do Alecrim lá pelos fins dos anos 80 e tem escrito a lápis «dicionário rarao».
Não sei se é realmente raro.
Cumpts.

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