Quarta-feira, 17 de Abril de 2013

O fim (i. é, o objectivo) da crise...

... e a pesada herança do fascismo.

 [Megan Green da Maverick disse que] a crise atingiu um ponto em que menos doloroso seria Chipre procurar uma «separação amigável» da zona Euro e livrar-se dos grilhões.
 Decerto. E como falamos nele, procuremos uma «separação amigável» para todos: para Portugal, para a Irlanda, para Espanha, para Itália e, acima de tudo, para a Alemanha, pois que todos eles são prejudicados de diversa maneira pelo projecto infernal (da moeda única). Todos eles são vítimas das suas élites.
 [...]
 Devia ser já óbvio que as solenes promessas dos senhores da zona Euro são balelas. Mudam de conversa quando lhes convém e quando a política dos seus países o exige.
 Chipre pode não ser um ensaio mas é nitidamente um aviso a qualquer outro país da zona Euro a braços com a dívida externa, doravante. Os credores podem ir longe para evitarem assumir perdas. Vemos já que as reservas de ouro são o que têm poder de alcançar. Que irá suceder com a economia portuguesa a afundar-se na voragem recessiva e com o
deficit encalhado perto dos 6% do P.I.B., apesar da carga fiscal, e a dívida pública a raiar 5/4  do P.I.B.?
 Portugal possui (a expressão do inglês é
holds = guarda, que não remete exactamente para ideia de posse) 382 t de ouro, 14.ª maior reserva nacional do Mundo, mais do que a Grã-Bretanha ou a Espanha. -- Por delicadeza passo os métodos de Salazar em no adquirir (por delicadeza, realmente, calava o calunioso despropósito).
 Portanto, irá a Troika mandar Portugal entregar a sua reserva de ouro se o país pedir um 2.º resgate como vaticinam inúmeros analistas na City de Londres?

Ambrósio Evans-Pritchard, «A trama da zona Euro adensa-se enquanto os credores cobiçam a reserva de ouro de Chipre», The Telegraph, 11/IV/13 (trad. e comentários meus).

 Portugal tinha em 25 de Abril de 1974 mais de 900 t de ouro. Hoje tem 382 t. E sobre o método de o adquirir veja-se se já em 1937 vinha com suástica.

 

Desembarque de caixotes com ouro destinados ao Banco de Portugal («O Século, 31/III/1937)
O desembarque de caixotes com ouro destinado ao Banco de Portugal, Porto de Lisboa, 1937.
A.N.T.T., Dp6/Sl1/Arm1 (O Século, 31/3/1937).

Escrito com Bic Laranja às 12:49
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9 comentários:
De Marcos Pinho de Escobar a 17 de Abril de 2013
Caro Bic,
Dar coices em Salazar, mesmo em temas puramente financeiros - área na qual o referido também era Mestre incontestável - é atitude obrigatória, reflexo pavloviano. Do contrário perde-se o emprego, esfumam-se as benesses, e não se faz bonito com os "bem"-pensantes. Salazar obteve ouro "the old-fashioned way": trabalhou duro, produziu, gastou menos do que gastou - poupou. Tudo coisa que as sumidades democratíticas nem sabem o que significa.
Abraço amigo.
De Bic Laranja a 17 de Abril de 2013
E sobre métodos, de aforro e de maledicência ignara, ficou tudo dito.
Obrigado!
De Luciana R. da Gama a 18 de Abril de 2013
Ora aqui está a chave desta bela barafunda em que nos meteram: "Mudam de conversa quando lhes convém e quando a política dos seus países o exige". E assim vamos nós levando os coices a seu bel-prazer! :-/

Abraço

Ps: Então o seu "Mundo Disney" foi de passagem ultra-meteórica? Ainda que breve, sentirei a sua falta.
De Bic Laranja a 18 de Abril de 2013
Assim é.
Cumpts.
P.S.: assim foi.
:)
De mujahedin a 18 de Abril de 2013
Caro Bic,

conforme prometido, aqui fica, do Diccionario Contemporaneo (oxalá o fosse ainda), a transcripção da parte intitulada ORTOGRAPHIA.

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ORTHOGRAPHIA

Adoptàmos a orthographia etymologica para os termos de origem erudita e historica, e para as palavres populares a forma popular. Todavia a tendencia moderna é ir substituindo o elemento popular pelo etymologico. Hoje, geralmente, escreve-se egreja em vez de igreja; egual em vez de igual; similhante em vez de semelhante; logar em vez de lugar, não obstante este uso contrariar as leis da nossa morphologia.
O systema que se funda na imitação do som, denominado orthografia phonetica, não tem outro principio regulador senão o capricho individual, e as suas regras pertencem ao dominio da imaginação. Hoje os grandes philologos não se occupam d'ella. Os phonetistas, em face da actual sciencia linguistica, representam o papel dos alchimistas da edade media em busca da transformação dos metaes.
O fim secundario da orthographia é pintar os sons, o primario é dar-nos a conhecer a palavra, dizer-nos a sua origem e a sua historia.
A orthographia phonetica trata de pintar, e mal, os sons que necessariamente se modificam de dia para dia, e concorre para a instabilidade das linguas; a orthographia etymologica tende ao contrario a fixal-as e determinal-as.
Na littertura e na sciencia não se póde prescindir do estudo da origem das palavras e da sua historia. Succede com as palavras o mesmo que com os homens.
Ignorando-se a filiação de uma pessoa e sua vida, ha uma certa hesitação em tratar com ella. N'esta mesma difficuldade ou embaraço se acha muitas vezes o escriptor em relação ao emprego das palavras. Não tendo segurança na sua procedencia e formação, fica perplexo sobre a legitimidade, propriedade ou conveniencia do seu emprego. O elemento etymologico é o certificado que nos justifica a filiação do vocabulo, o que dá grande satisfação e confiança ao escriptor que se preza de correcto.
O que ignora que a origem commum dos vocabulos aurora e doirado é o termo latino aurum, não hesitará em empregar a phrase vulgar doirada aurora; que equivale etymologicamente á expressão ouro dourado. Os que não conhecem os elementos etymologicos do termo vangloriar-se, empregam como é vulgar este verbo como synonymo de gloriar-se; quando o verbo vangloriar-se só se póde applicar para exprimir uma jactancia ingloria e vã. A palavra manquejar é a fórma frequentativa do verbo mancar, formado do radical mão. Os que ignoram esta procedencia applicam-no aos homens aleijados dos pés, que claudicam, que coxeam. O termo autonomia é de procedencia directa latina e indirecta grega; exprime o direito que os romanos davam a certas cidades do imperio de se governarem pelas suas proprias leis, e elegerem os seus magistrados. Os que não conhecem esta procedencia empregam-no na accepção de independencia.
O termo candidato, de origem latina, significava entre os romanos o cidadão que aspirava a algum cargo ou dignidade, e como taes se apresentavam vestidos de uma toga branca, candida.
Por allusão dava'se este nome aos que aspiravam ao suffragio do povo.
E, todavia, não ha muito, vimos que a imprensa chamava a el-rei D. Fernando candidato ao throno de Hespanha, quando elle não só não se propunha áquella suprema dignidade civil, mas pelo contrario se recusava formalmente a acceital-a.
Vulgar é encontrar o verbo obcecar escripto com s (obsecar); os que sabem que o radical secare significa cortar, sorriem da troca.
O elemento etymologico serve ainda em grande numero de vocabulos de distinguir dois termos que na linguagem falada estão envolvidos nas trevas do homonymo; taes como: assento e accento, cella e sella; annular e annullar, valle e vale, buxo e bucho, sega e cega, (...), etc.
Um partidario da orthographia phonetica escrevia ha pouco - El-rei matou dois servos. Elle queria dizer dois cervos (veados).

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(continua)
De mujahedin a 18 de Abril de 2013
(continuação da transcripção)

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Outra ordem de idéas, postoque de menos valia, recommenda a orthographia etymologica.
A orthographia etymologica é a parte esthetica da palavra.
Assim as palavras historicas monumentaes, que nos trazem á imaginação a veneração por um heroe ou as recordações gloriosas de um grande povo, melhor falarão ao nosso enthusiasmo, quando a sua fórma concorrer para excitar a nossa sensibilidade.
A orthographia phonica apresenta o esqueleto da palavra, a orthographia erudita mostra-nos o verbum tal qual elle viveu no vigor e brilho da sua existencia.
A orthographia sabia fala á intelligencia e ao coração, a phonica apenas se dirige ao sentido de audição.
Quando lemos a palavra homem, a lettra morta h traz-nos á phantasia a grande civilisação romanaç filia o homem actual n'essa gloriosa pleiade de heroes latinos, cujas acções maravilhosas ainda hoje assombram o mundo.
Para bem se apreciar quanta influencia exerce no nosso espirito a apparencia das cousas adduzâmos um exemplo: Dispam-se ao grande apostolo das Indias os seus habitos talares e substituam-se pelos requintes da moda do ultimo figurino parisiense; e a figura evangelica de S. Francisco Xavier deixará de nos enthusiasmar a imaginação, confundindo o heroe da fé christã com os peralvilhos da moderna sociedade.

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De Bic Laranja a 19 de Abril de 2013
Ora cá está! :)
Contava transcrevê-lo só no fim de semana, ei-lo já aqui, prontíssimo.
Peço-lhe só a indulgência dumas horas até me ser possível editá-lo num verbete.
Muito obrigado.
De mujahedin a 19 de Abril de 2013
Hom'essa! O prazer foi meu!

Conviria, talvez, uma revisão por olho experiente pois hão-de haver para aí umas gralhas que tenham escapado ao meu, menos habituado a ler e escrever a nossa língua nesta belíssima graphia...

Cumprimentos!
De M.Martins a 25 de Setembro de 2014
Ainda bem que não sou escritor!Se não jà tinha ido parar ao cadafalso.Cumprimentos

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