Sexta-feira, 19 de Abril de 2013

Orthographia

 Do estimado leitor mujahedin recebi uma generosíssima trasncripção que para aqui traslado porque merece ampla divulgação. Quizesse Deus que os peralvilhos da moderna sociedade entendessem o que n'ella se diz. Mais actual não podia ser.


 Caro Bic, conforme prometido, aqui fica, do Diccionario Contemporaneo (oxalá o fosse ainda), a transcripção da parte intitulada ORTOGRAPHIA.


ORTHOGRAPHIA

« Adoptàmos a orthographia etymologica para os termos de origem erudita e historica, e para as palavras populares a forma popular. Todavia a tendencia moderna é ir substituindo o elemento popular pelo etymologico. Hoje, geralmente, escreve-se egreja em vez de igreja; egual em vez de igual; similhante em vez de semelhante; logar em vez de lugar, não obstante este uso contrariar as leis da nossa morphologia.
 O systema que se funda na imitação do som, denominado orthografia phonetica, não tem outro principio regulador senão o capricho individual, e as suas regras pertencem ao dominio da imaginação. Hoje os grandes philologos não se occupam d'ella. Os phonetistas, em face da actual sciencia linguistica, representam o papel dos alchimistas da edade media em busca da transformação dos metaes.
 O fim secundario da orthographia é pintar os sons, o primario é dar-nos a conhecer a palavra, dizer-nos a sua origem e a sua historia.
 A orthographia phonetica trata de pintar, e mal, os sons que necessariamente se modificam de dia para dia, e concorre para a instabilidade das linguas; a orthographia etymologica tende ao contrario a fixal-as e determinal-as.
 Na littertura e na sciencia não se póde prescindir do estudo da origem das palavras e da sua historia. Succede com as palavras o mesmo que com os homens.
 Ignorando-se a filiação de uma pessoa e sua vida, ha uma certa hesitação em tratar com ella. N'esta mesma difficuldade ou embaraço se acha muitas vezes o escriptor em relação ao emprego das palavras. Não tendo segurança na sua procedencia e formação, fica perplexo sobre a legitimidade, propriedade ou conveniencia do seu emprego. O elemento etymologico é o certificado que nos justifica a filiação do vocabulo, o que dá grande satisfação e confiança ao escriptor que se preza de correcto.
 O que ignora que a origem commum dos vocabulos aurora e doirado é o termo latino aurum, não hesitará em empregar a phrase vulgar doirada aurora; que equivale etymologicamente á expressão ouro dourado. Os que não conhecem os elementos etymologicos do termo vangloriar-se, empregam como é vulgar este verbo como synonymo de gloriar-se; quando o verbo vangloriar-se só se póde applicar para exprimir uma jactancia ingloria e vã. A palavra manquejar é a fórma frequentativa do verbo mancar, formado do radical mão. Os que ignoram esta procedencia applicam-no aos homens aleijados dos pés, que claudicam, que coxeam. O termo autonomia é de procedencia directa latina e indirecta grega; exprime o direito que os romanos davam a certas cidades do imperio de se governarem pelas suas proprias leis, e elegerem os seus magistrados. Os que não conhecem esta procedencia empregam-no na accepção de independencia.
 O termo candidato, de origem latina, significava entre os romanos o cidadão que aspirava a algum cargo ou dignidade, e como taes se apresentavam vestidos de uma toga branca, candida.
 Por allusão dava-se este nome aos que aspiravam ao suffragio do povo.
 E, todavia, não ha muito, vimos que a imprensa chamava a el-rei D. Fernando candidato ao throno de Hespanha, quando elle não só não se propunha áquella suprema dignidade civil, mas pelo contrario se recusava formalmente a acceital-a.
 Vulgar é encontrar o verbo obcecar escripto com s (obsecar); os que sabem que o radical secare significa cortar, sorriem da troca.
 O elemento etymologico serve ainda em grande numero de vocabulos de distinguir dois termos que na linguagem falada estão envolvidos nas trevas do homonymo; taes como: assento e accento, cella e sella; anhelar e anellar, annular e annullar, valle e vale, buxo e bucho, sega e cega, sem e cem, chama e chamma, gema e gemma, era e hera, laço e lasso, sumo e summo, tensão e tenção, etc.
 Um partidario da orthographia phonetica escrevia ha pouco - El-rei matou dois servos. Elle queria dizer dois cervos (veados).

 Outra ordem de idéas, postoque de menos valia, recommenda a orthographia etymologica.
 A orthographia etymologica é a parte esthetica da palavra.
 Assim as palavras historicas monumentaes, que nos trazem á imaginação a veneração por um heroe ou as recordações gloriosas de um grande povo, melhor falarão ao nosso enthusiasmo, quando a sua fórma concorrer para excitar a nossa sensibilidade.
 A orthographia phonica apresenta o esqueleto da palavra, a orthographia erudita mostra-nos o verbum tal qual elle viveu no vigor e brilho da sua existencia.
 A orthographia sabia fala á intelligencia e ao coração, a phonica apenas se dirige ao sentido de audição.
 Quando lemos a palavra homem, a lettra morta h traz-nos á phantasia a grande civilisação romana filia o homem actual n'essa gloriosa pleiade de heroes latinos, cujas acções maravilhosas ainda hoje assombram o mundo.
 Para bem se apreciar quanta influencia exerce no nosso espirito a apparencia das cousas adduzâmos um exemplo: Dispam-se ao grande apostolo das Indias os seus habitos talares e substituam-se pelos requintes da moda do ultimo figurino parisiense; e a figura evangelica de S. Francisco Xavier deixará de nos enthusiasmar a imaginação, confundindo o heroe da fé christã com os peralvilhos da moderna sociedade.»
Diccionario Contemporaneo da Lingua Portugueza [Aulete], Lisboa, Imprensa Nacional, 1881, pp. XIX-XX.

Desvanecer, v. tr. e pr. (Aulete, 1881)
Escrito com Bic Laranja às 12:35
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8 comentários:
De Afonso Loureiro a 19 de Abril de 2013
Ora se já no tempo de D. Fernando II se considerava que a ortografia fonética era coisa (cousa, couza, coysa, coyza) atrasada, que se poderá dizer dos acorditas que teimam em defender que é o símbolo de avanço civilizacional mais refulgente deste lado da linha de Tordesilhas?

Estão a preparar-se para vender um novo acordo daqui a vinte anos, quando já ninguém souber pronunciar nenhuma das palavras amputadas.
De Bic Laranja a 20 de Abril de 2013
A ortografia passou a ser como os automóveis. De três em três anos sofre um «restyling». Para dynamizar o mercadejo de livralhada.
Cumpts.
De Inspector Jaap a 19 de Abril de 2013
Mas que magistral (até pela sua simplicidade) lição de (bom) Português; pena é que estes obtusos bestuntos, dele não consigam tirar nenhum proveito! Estou como aquele brasileiro que diz que quem nasceu para lagartixa, nunca chegará a crocodilo. E, estas lagartixas, que mais parecem ofídios, dada a sua viperina língua, não passam mesmo disso: asquerosos répteis com interesses mais que inconfessáveis; houvesse ele povo digno desse nome e logo teriam a resposta adequada.
Parabéns ao leitor «mujahedin» por ter enriquecido ainda mais este espaço cultural.
Cumpts
De Bic Laranja a 20 de Abril de 2013
É tão sensato que espanta, não é verdade?
Cumpts.
De Inspector Jaap a 22 de Abril de 2013
A resposta, que agradeço, tem tanto de sucinta como de justa!
Cumpts
De Bic Laranja a 23 de Abril de 2013
:) Cumpts.
De Pedro da Silva Coelho a 24 de Abril de 2013
"A orthographia phonica apresenta o esqueleto da palavra, a orthographia erudita mostra-nos o verbum tal qual elle viveu no vigor e brilho da sua existencia.
A orthographia sabia fala á intelligencia e ao coração, a phonica apenas se dirige ao sentido de audição.
Quando lemos a palavra homem, a lettra morta h traz-nos á phantasia a grande civilisação romana; filia o homem actual n'essa gloriosa pleiade de heroes latinos, cujas acções maravilhosas ainda hoje assombram o mundo."

Bellissimo! Quanta sageza, quanto amor á lingua, á escripta e ao pensamento.
De Bic Laranja a 28 de Abril de 2013
:) Cumpts.

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