Terça-feira, 28 de Maio de 2013

Do cágado sem acento e do monturo gerado

 Ninguém se convence da bondade do «Acordo Ortográfico». Só por brutalidade institucional ele tem ido, contra os indivíduos, contra a gente. A comprová-lo, com elementar evidência, o número de colunistas em jornais que se não rebaixam ao ditame institucional. O recente livro de Pedro Correia enumera-os:

« Segue a lista – por ordem alfabética e necessariamente incompleta – dos colunistas e colaboradores regulares da imprensa portuguesa, de todas as tendências políticas […]
  Abel Barros Baptista (Ler), Alberto Gonçalves (D.N.), Ana Bacalhau (Notícias Magazine), Anselmo Borges (D.N.), António Lobo Antunes (Visão), António Sousa Homem (Domingo, revista dominical do Correio da Manhã), Bagão Félix (A Bola), Baptista-Bastos (D.N.), Celeste Cardona (D.N.) Cruz dos Santos (A Bola), Eduardo Cintra Torres (Correio da Manhã), Fernando Sobral (Correio da Manhã), Francisco Belard (Ler), João César das Neves (D.N.), João Pereira Coutinho (Correio da Manhã), José Cutileiro (Expresso), Luciano Amaral (Correio da Manhã), Manuel Falcão (Correio da Manhã), Manuel Martins de Sá (A Bola), Manuel S. Fonseca (Expresso), Maria Filomena Mónica (Expresso), Marques Mendes (Correio da Manhã), Miguel Sousa Tavares (Expresso), Paulo Baldaia (D.N.), Paulo Pereira de Almeida (D.N.), Pedro Marques Lopes (D.N.), Pedro Mexia (Expresso e Ler), Ricardo Araújo Pereira (Visão), Rui Moreira (A Bola), Rui Santos (Record), Sidónio Serpa (A Bola), Sílvio Servan (A Bola), Tiago Rebelo (Domingo), Vasco Graça Moura (D.N.) e Victor Bandarra (Domingo) »
(Vogais e Consoantes Politicamente Incorrectas, pp. 120-121.)

 Gente de carne e osso, e espinha direita, contra o despotismo institucional. Honra lhes seja feita sem desprimor doutros mais.

 Só pela brutalidade institucional, pois, o dito Acordo tem ido e – bom! – nem assim sempre.
 Quando há poucos meses tive notícia da rejeição do caco gráfico pela Câmara Municipal das Caldas da Rainha soube que apesar dessa decisão esta se achava subjugada ainda assim ao ditame do governo por via da Imprensa Nacional, que lhe recusava os textos para publicação no diário do governo que não fossem em acordês. Já antes se dera o caso de os ovinos funcionários da Imprensa Nacional mutilarem a ortografia portuguesa por correctagem do Lince aos textos do Tribunal de Viana do Castelo antes de os publicarem no Diário da República; não se livraram então da reprimenda do meritíssimo juiz Rui Estrela de Oliveira por adulterarem textos emanados dum órgão de soberania, com sentença lida de que o designado «Acordo Ortográfico» não vigora como lei nem vincula os tribunais. (Muito menos vinculará privados particulares, individuais ou colectivos, que por irreflexão ou por moda se apressaram no trilho da asneira, mas isso é bem a face da estupidez dos humanos...)
 Ontem [anteontem] houvemos notícia de que o juiz Rui Teixeira do Tribunal de Torres Vedras advertiu a Direcção Geral de Reinserção Social de «que deverá apresentar as peças em Língua Portuguesa e sem erros ortográficos decorrentes da aplicação da Resolução do Conselho de Ministros 8/2011 (...) a qual apenas vincula o Governo e não os tribunais (1)». Fê-lo até com certo espírito (embora o Diário de Notícias hoje [ontem] o enfatizasse meio a despropósito no próprio título da notícia e com gralhas):

 Magistrado alega que as «actsa (sic) (2) não são uma foram (sic) do verbo atar» e «os cágados continuam a ser animais e não algo malcheiroso».

 A conclusão parece-me óbvia. Tapemos o nariz.
 Onde o Português imperava plácida e serenamente em Portugal mais seis estados independentes e uma região administrativa especial, sucedeu-nos a fatalidade de virem uns tais a tirar os chispes do chiqueiro em que os tinham e meterem-nos (aos chispes) a endireitar o que estava direito. Obraram o bom em óptimo (velhos inimigos) sem curar de optimizar o novo óptimo a condizer. No fundo obraram um cágado sem acento. Ou uma fémea disso (3), para não haver aqui machismo (que modernamente é designado discriminação de género para que os mais modernaços entendam).
 Como nestas coisas escatológicas nos não devemos admirar de achar o fim último, que será a Democracia Universal pluripartidária, para onde necessariamente deriva a humanidade (ou pelo menos o Ocidente dela mai-la sua Primavera Árabe), não nos espantemos, pois, da recente irrupção dum monte de partidos ortográficos gerados do tal cágado sem acento. Caso semelhante, pela quantidade, só me lembra o romper de partidos de índole marxista de baixo das pedras tombadas do fascismo nos dias a seguir ao 25 de Abril de 1974, ainda as verdadeiras ervas daninhas não germinavam por ali. Dos escombros do idioma pátrio, agora, adianto alguns novíssimos de que sei – o benévolo leitor há-os já de ter achado por aí:

  • partido ortográfico do governo, oficialão e capataz -- oficial na instrução pública, nas novas oportunidades e raiz de todo o sucesso escolar afim;
  • troika ortográfica; a) do Aníbal em visita ao Brasil (variante Português na O.N.U.); b) do Aníbal em Belém (variante bolo-rei) e; c) do Aníbal em família (variante regente escolar, com direito a palmatoada, pela certa…);
  • partido ortográfico dos tribunais, da independência soberana dos juizes -- que não da Justiça, porque esta, sabe-lo-á o benévolo leitor, é cega ou, pelo menos em Portugal, zarolha;
  • partidos autárquicos ortográficos da câmara de Cá e o do município de Lá, com recepção condigna ou patuda;
  • partido da Imprensa Nacional, segundo o capricho do governo (o do respeitinho é bonito);
  • outro partido da Imprensa Nacional, segundo a lei dos tribunais (o do melhor é não abusar);
  • partido ortográfico marafado, o do jornal Barlavento, muito mais a sotavento do que a barlavento do vendaval acordita, pelo que deu em só seguir as suas principais regras sem  exagerar brasileirices nem portuguesices;
  • partido ortográfico do Correio da Manhã, seguindo uma original tese de faca e alguidar acerca do próprio «acordo ortográfico»;
  • partido ortográfico do cidadão comum, com lema a mim ninguém me obriga a escrever torto por direito (a menos que venha o chefe);
  • partido ortográfico da pessoa humana, o dos modernaços do Restelo que desprezam os velhos;
  • partido ortográfico do Jornal de Angola, o de Angola é nossa e o português também (cuanza passa a kwanza);
  • partido ortográfico da ratificação de Moçambique (o único com preço marcado; 100 milhoes de dólares ou 80 milhões de euros);

 Já lá não vamos com desodorizante. O cheiro do cágado sem acento é Portugal em decomposição.


Entre pelo Socialismo (cartazes de propaganda eleitoral), Cais do Sodré (F. Gonçalve, 1976)
Em frente pelo Socialismo! (cartazes de propaganda eleitoral), Cais do Sodré, 1976.
F. Gonçalves, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

----

(1) Maiúscula no «governo» e minúscula em «tribunais» decorrerá do Acordo Ortográfico ou é só do chispe do escriba?

(2) Provavelmente o escriba do D.N. não deve ter achado outro meio de pôr o «c» em «actas» senão baralhando as letras; doutra maneira o Lince comia-lhe a consoante.

(3) cf. base XI, 3.º do tal bicho sem acento, o único sítio onde oficialmente se conhecem fémeas na língua portuguesa.

Escrito com Bic Laranja às 00:20
Verbete | comentar
4 comentários:
De Inspector Jaap a 4 de Junho de 2013 às 21:42
Isto, de facto, fede; o pior é que há pessoas que criaram a peregrina ideia de quje à força de meterem o nariz nesta calda nauseabunda, vão acabar por deixar de sentir o cheiro… Talvez sim, mas eu, pelo meu lado, prefiro continuar a senti-lo, para o poder evitar com todas as minhas forças.
Cumpts
De Bic Laranja a 5 de Junho de 2013 às 18:07
Pois não recomendo. Demasiado tóxico.
Cumpts.
De Red_Joker a 8 de Agosto de 2013 às 01:49
Descobri este blog por mero acaso. Mal vi que era contra o Acordo fiquei deveras contente e fui lendo o que encontrei aqui sobre o assunto, porque não concordo com esta aberração ortográfica, que é para mim a chacina do Português.
Admiro a sua paciência e a dedicação contínua à luta contra o AO.
Sendo estudante tenho que levar com a acordalhada nos manuais escolares (e nas correcções dos testes, uma vez que eu me recuso a escrever desta nova e degradante maneira). Por isso, evito manter contacto com a nova ortografia fora da escola, daí que não soubesse sequer destas variantes que aqui apresenta.
Nem imagina como me ri! Quão trágico, hilariante e patético! Pois claro, com regras tão absurdas, é quase legítimo que cada um invente o seu próprio acordo ortográfico - e parece que muita gente assim o faz.
Nem sei o que é pior, se o NAO ou se a Nova Terminologia. Para quem estuda é um pacote dois em um.
Cá para mim há neste país um montão de gente que não tem nada que fazer e, julgando-se muito importante e competente, resolve armar destas embrulhadas.
De Bic Laranja a 14 de Agosto de 2013 às 18:51
Grato pelo apreço e pelo alento.
A ordem certa do aleijão que fazem ao português é «patético, hilariante e trágico». E é isto o que é dramático.
Claro que é resultado de muita gente a meter o bedelho onde não é chamada. Que por sua vez já vem ignorante e atrevidamente mal preparada por outra gente intelectuamente manca.
Uma espiral que só se há-de agravar.
Portugal há muito que acabou. Salvam-se alguns portugueses que, como nós, andamos em cuidados por causa do descalabro.
Cumpts.

Comentar

Outubro 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
11
14
18
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Visitante


Contador

Selo de garantia

pesquisar

Ligações

Adamastor (O)
Apartado 53
Arquivo Digital 7cv
Bic Cristal
Blog[o] de Cheiros
Caminhos de Ferro Vale Fumaça
Carmo e a Trindade (O)
Chove
Cidade Surpreendente (A)
Corta-Fitas(pub)
Delito de Opinião
Dragoscópio
Eléctricos
Espectador Portuguez (O)
Estado Sentido
Eternas Saudades do Futuro
Fadocravo
Firefox contra o Acordo Ortográfico
H Gasolim Ultramarino
Ilustração Portuguesa
Lisboa
Lisboa de Antigamente
Lisboa Desaparecida
Menina Marota
Mercado de Bem-Fica
Meu Bazar de Ideias
Paixão por Lisboa
Pena e Espada(pub)
Perspectivas(pub)
Pombalinho
Porta da Loja
Porto e não só (Do)
Portugal em Postais Antigos(pub)
Retalhos de Bem-Fica
Restos de Colecção
Rio das Maçãs(pub)
Ruas de Lisboa com Alguma História
Ruinarte(pub)
Santa Nostalgia
Terra das Vacas (Na)
Tradicionalista (O)
Ultramar

arquivo

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

RSS

____