10 comentários:
De [s.n.] a 15 de Junho de 2013
Mas por uma questão de habituação ou, se se preferir, de fala corrente, não poderá dizer-se indiferentemente "há" ou "havia" em discurso oral, referindo-nos ao tempo passado mas que continua a decorrer no presente ou mais especìficamente num tempo decorrido apenas há minutos, uma hora, um dia, um mês, sem se cair num erro verbal pròpriamente dito, se bem que na escrita cuidada (jornais, revistas, televisões, etc.) e principalmente na erudita (literatura, textos técnicos, científicos, etc.) o termo verbal que menciona esteja correctíssimo? I wonder:))

Na nossa língua e até n'algumas outras, há vários termos verbais que vão sofrendo mutações (orais e escritas) em circunstâncias semelhantes, sem pecarem por incorrectos. Ainda que naturalmente não agradem aos puristas da língua. Eu por exemplo sou uma destas, portanto contra mim falo...
Mas deixo a dúvida e o respectivo esclarecimento ao emérito filologista e igual semantista, dono desta casa, que sabe muito mais sobre a construção e evolução do português do que eu.
Maria
De Bic Laranja a 15 de Junho de 2013
Ponhamos o verbo «ter» em seu lugar, como é mais costume no Brasil: estava no hospital tem um mês ou estava no hospital tinha um mês? São indiferentes?

Cuido que anda aí um vírus a fabricar uma locução adverbial com «há» invariavel seguido de locução de tempo. As pessoas pura e simplesmente perderam a noção dos tempos adequados do verbo «haver». Daí o vermos ministerialmente escoiceado.
Cumpts.
De anonimo a 16 de Junho de 2013
Já tenho comentado aqui no sentido do 1º comentador.
Se é certo que não estranho o correcto havia, o certo é que deixei de estranhar o há. Creio que já uma vez aqui tinha deixado um exemplo da Camilo deste uso do verbo haver.
A questão é que - e creio ser mais ligeiramente mais velho do que o A. do blog - aprendi na escola, mas mas muitos erros eram corrigidos em casa. Hoje não se aprende e a mudança (repare que não digo evolução) nasce do erro e o erro da má assimilação da norma.
De Bic Laranja a 16 de Junho de 2013
De certo. Mas se (ainda) sabemos melhor porquê insistir no pior?
Cumpts.
De mujahedin a 17 de Junho de 2013
Sem pretender autoridade sobre o assunto, o hábito desta práctica é tão comum que acredito que a maior parte das pessoas nem se apercebe do que faz (foi assim comigo, só neste sítio fui alertado).

De um ponto de vista lógico e de coerência, não há justificação para se usar "há" em vez de "havia", parece-me. Mas há uma situação em que a inconsistência é menor, creio: quando o tempo descrito termina no presente.

Assim, se o Diogo estava no hospital havia um mês, o tempo acabou quando se escreveu a notícia, portanto, é um mês contado desde aí. Ao dizer-se que estava no hospital há um mês, esse intervalo correspondente a um mês tem necessariamente que terminar agora (no presente) para a frase ser minimamente consistente (naturalmente, o acto a que se refere tem necessariamente que terminar ao mesmo tempo: neste caso, o Diogo saiu do hospital agora, onde estava há um mês - contado desde este momento).

Arriscaria dizer que este fenómeno acontece por, na maioria das vezes, quererem as pessoas referirem-se a coisas que acabam no, ou perto do, momento em que as contam, tornando a inconsistência menos evidente. Mas ela lá está, porém.

Não justifica o erro, mas poderá explicar a sua ubiquidade...

Cmpts.

PS: Lembra-me o exemplo de Camilo, mas não me lembra ao certo qual era. Alertaria para o facto de poder ser um exemplo de discurso directo e, portanto, o auto ter-se dado a liberalidade de o compôr como o comporiam as próprias personagens, portanto sujeito aos vícios e incorrecções populares. Não significa, penso, que o autor considerasse aquela a forma correcta de escrever ou falar, mas apenas que era a forma comum de escrever ou falar das pessoas retratadas como ele as entendia.
De Bic Laranja a 17 de Junho de 2013
Quase ninguém (hoje) se apercebe ao falar, e isto é espantoso! Poucos mais se aperceberão na escrita e alguns mais se aperceberiam, assim revissem o que escrevem.

É corruptela entrevista nos do séc. XIX, Camillo e Garrett incluídos, como antes dei nota aqui. Os nossos antigos, porém, não se equivocavam, o que ainda é mais de admirar porque me parece serem os povos analfabetos (e não só os escribas) que falavam sem se enganar.

Refere bem o caso muito preciso de coincidência do tempo da acção com o tempo do narrador como génese provável da confusão aonde chegámos. Pode ser que sim. Porém note como os antigos falavam:
« — Senhor amigo [...] saberdes que me prouve e praz serdes assim prestes como dizem que sois porque dias há que esta mesma vontade tinha [e tenho] eu de vos ir buscar [...]» (Crónica do Condestabre de Portugal, França Amado, Coimbra, 1911, p. 175).

(Do ex. acima o mesmo é dizer tinha esta vontade dias de vos ir buscar, mas é inequívoco que o narrador se situa na própria acção e esta decorre no presente como se percebe de me prouve e praz.)

Se o caso na primeira página do jornal tem, por conseguinte, este matiz (i. é, se o jornalista se inclui na narração, ou se, alheio a ela, narra-a no tempo ainda do facto narrado -- logo após da morte de Diogo, portanto) eis como poderia havê-lo dito:
«Diogo tinha 15 anos e morreu agora de A.V.C .. Estava no hospital um mês...»

Ou doutra maneira se, em melhor estilo, procurasse o jornalista estender o facto narrado para o seu tempo de narrador:
«Diogo tinha 15 anos e morreu de A.V.C .. Estava no hospital há agora um mês...»


Estes dois últimos exemplos revelam uma ironia da Gramática. Ao não se usar o advérbio «agora» para transmitir como no presente uma acção passada denunciada pelos verbos no pretérito, forja-se confusamente «há» invariável (como um advérbio) + oração temporal, provocando dúvida (e alguns pulga atrás da orelha). Isto é também um sinal das mentes (hoje). E a questão que sobra é: era o tempo do facto narrado no jornal o mesmo em que ocorreu a sua narração? Da maneira que vejo a notícia fico sem saber.
Cumpts.
De mujahedin a 18 de Junho de 2013
São interessantes questões as que levanta.

A dos antigos escreverem e falarem melhor, por exemplo, daria pano para mangas e conflictua com muitas narrativas (usando uma palavra tristemente célebre) que por aí se dão sobre esses tempos longínquos.

Já a da perda de utilidade da notícia é de interesse duplo: por um lado, demonstra que o desleixo com a escrita tem consequências prácticas e prejudica objectivamente a comunicação. Neste caso, saber-se afinal de contas há quanto tempo estava no hospital o rapaz.
Por outro lado, demonstra que estes jornalistas só podem ser classificados como amadores, pois nem se dão ao trabalho de saber se transmitem com precisão a informação de que trata a notícia. Falta, da qual nós leitores, em calhando nem nos apercebemos muitas vezes.

Fico obrigado, portanto, pela amável exposição!
Cmpts.
De Rom a 25 de Junho de 2013
http://www.ciberduvidas.pt/perguntas/get/297964
De Bic Laranja a 26 de Junho de 2013
Grato.
Cumpts.

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