Sexta-feira, 28 de Junho de 2013

O Oeste

 Há cada vez mais a maneira de referir-se a província da Estremadura como o Oeste. Fala-se nas Caldas, é no Oeste; ouve-se de Torres (Vedras *), fica no Oeste; da Lourinhã, do Bombarral &c., idem. Não sei de quando vem isto. Podia parecer que alguém se pôs a olhar de Oriente para Ocidente e baptizou aquelas terras, mas não. Ele há decerto de ter sido quando a administração do território passou mais a ser feita sobre o mapa nas secretarias em Lisboa do que no terreno.
 As províncias -- os seus nomes -- carregam História: segredam-nos a formação gradual do reino de Portugal. E do que soube, porém, nem as já ensinam na instrução primária. Das entranhas do passado os arúspices da religião vanguardista pouco mais sabem do que papaguear umas sensaboronas capitais distrito do Liberalismo às criancinhas da 3.ª classe. Ora por mais regiões de nomes modernos parvos que inventem debruçados sobre o mapa de Portugal, a realidade é que os agentes da ordenação do território ignoram tudo o que ele representa. A culpa talvez nem seja sua, mas antes de quem lhes negou educação capaz. Os nomes das províncias nem seriam difíceis de qualquer criança perceber...
 Dos tempos anteriores à fundação foi na progressão de gente cristã vinda da Galiza e do Minho e da sua perspectiva em marcos no terreno que se formou o nome de Trás-os-Montes. Uma perspectiva geográfica tomada do Minho, òbviamente. Os montes são a serra do Marão, como fácil será de entender. Para lá do Marão só se sabe dos que lá estão desde que a província foi colonizada por galegos minhotos que lhe levaram este nome. Antes era um ermo **.
 Já sobre o Sul, a perspectiva tirada do Douro é a da Beira -- da beira de lá do Douro, por oposição à beira de cá (do lado do Minho e, já agora de Trás-os-Montes). Ao contrário de Trás-os-Montes, as terras da Beira não eram ermas; havia por ali moirama e a Reconquista levou o seu tempo até se chegar ao Tejo, à Extrema Durii. --  Ora bem! sobre o Tejo, a província da Estremadura não oculta a perspectiva de quem a alcança e baptiza in extremis... desde o Douro. E mudamos de marco. O Tejo. Para trás (e para a memória) ficaram as beiras.
 Alentejo é aglutinação de além Tejo, uma perspectiva ribatejana (de cima do Tejo -- riba = cima), ou estremenha, para não darmos demasiada importância a Lisboa. -- Aliás Lisboa ganhou só importância depois da Reconquista por para si confluírem os abastecimenos do Ribatejo e da Estremadura. Nem na antiguidade nem no período muçulmano fora Lisboa grande cidade. Mas Lisboa sobrepôs-se; ainda há poucos anos ouvi do governo querer mudar a designação da região vinícola da Estremadura para região vinícola de Lisboa, ao que parece por Lisboa ser agora mais sonante que Estremadura. É. mas a intenção de mudar o nome aos vinhos é idiota.
 Adiante.
 Deixado atrás o Tejo, o além Tejo estendia-se até ao Algarve, nome dum reino muçulmano (al-Gharb al-Ândaluz) com identidade mais do que firmada ao tempo da sua reconquista pelos portugueses para se tornasse perene. Tanto que se manteve o nome e o reino até ao fim da monarquia portuguesa (e ainda hoje se o ouve dizer). Significa o Ocidente, perspectiva de quem o conquistou vindo do Oriente, os árabes naturalmente. Dessarte chamaram os mouros igualmente Algarve ao Norte de África, a Marrocos isto é. Não os distinguiam. E daí os reis portugueses se terem clamado por séculos senhores dos Algarves, daquém e dalém mar em África.
 Pois bem. Com todo este caminho até ao Algarve e do que se disse parece que continuamos no Oeste.

Alentejo, Portugal (Cartier-Bresson, 1955)
Alentejo, Portugal, 1955.
Cartier-Bresson / Magnum, in Velho Portugal.

* Torres, em singelo, toma-se sempre, ao que cuido saber, por Torres Vedras. Nunca o ouvi a assim referido a Torres Novas.
** Se porventura houve nome autóctone dado a esta província, não sei nada dele. Sei é que mesmo o provérbio para lá do Marão sabem os que lá estão é de quem está de cá do Marão.

Escrito com Bic Laranja às 18:25
Verbete | comentar
28 comentários:
De gato a 16 de Julho de 2013
Vexa = uma pessoa de maus figados. Assim escrevo-lhe sem acentuaçao e leva uns ç por esmola.

Durante anos tenho apreciado seu trabalho e sua luta contra o AO.
Tambem sei escrever. Sei ler e escrever Portugues e Castelhano desde o 4-5 anos de idade, sem erros. Tambem nao sou manga de alpaca.

Tem razao quando escreve «Desde «sempre» é desde a revolução industrial, talvez».

Ao escrever, mesmo citando, «Se é como penso, há-de ter nascido nalguma secretaria do Estado, dumas alpacas quaesquer de cotovelos assentes sobre o mappa.», esta a ser reles (ver no Morais se precisar).

Vou ter mais cuidado com suas iscas.
As melhoras.
eao
De Bic Laranja a 16 de Julho de 2013
Agora por esta não esperava.
Não sei que tom me achou na reposta ao seu commentario para se agastar. Se achou recriminação minha a algo do que escreveu equivocou-se. Redigi sem seguir regra orthographica por motivo nenhum senão ligeireza e desfastio meus.
Da orthographia da minha redacção, em certo rigor, havia de ser «cotovellos» e não «cotovelos».
De ser eu reles (no sentido de «grosseiro») com as secretarias do Estado retraçam o mappa administrativo portuguez sem conhecer o terreno, acceito.
Cumpts.
De Bic Laranja a 16 de Julho de 2013
... secretarias do Estado [que] retraçam...
De Bic Laranja a 16 de Julho de 2013
Já agora e porque pode pairar por aqui equívoco: «secretarias do Estado» não são «secretárias do Estado».

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