Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2007

Os saloios

  Os urbanos nunca teveram os saloios em boa conta. Raul Proença via-os assim:

« Quando Afonso Henriques tomou posse de Lisboa consentiu-se ao mouro que refluisse para os subúrbios da cidade, e ele aí se estabeleceu, entregue ao cultivo das hortas, com a água a escorrer da nora gemedora. É desta população consentida, mourisca e subalterna, que deriva o mais da gente que habita os contornos de Lisboa - o saloio. [...] Psicologicamente, caracteriza-o o espírito de rotina, a crueza de vistas, a avareza levada à sordidez, e essa sitemática atitude de desconfiança que, sob o nome de esperteza saloia, tomou foros de proverbial, e foi filão aproveitado por muita veia cómica nos teatros de Lisboa. O seu horror à árvore, tão rácico, não pouco tem contribuído para despoetizar grandes zonas de terra em que se fixou, dando a certos retalhos arrabaldinos esse aspecto escalvado, marroquino e carrancudo [...]
  No mais, enverga jaqueta e calça abuzinada, na cabeça o barrete ou a carapuça, e em torno da cinta uma faixa negra. Elas usam saias curtas e botarras de cano baixo, com sola rijamente pregueada, e são as lavadeiras que o carreteiro traz todas as semanas à cidade em grandes cachos humanos [...] »

Raul Proença, Guia de Portugal, 1.º v., Generalidades; Lisboa e arredores,  1ª ed., B.N., Lisboa, 1924, p. 464 [Reed. da Gulbenkian, imp. 1991].

Saloios, Largo dos Caminhos de Ferro (Joshua Benoliel, 1913)
Saloios [espécie de], Largo do Museu da Artilharia, 1913.
Fotografia de Joshua Benoliel, in Arquivo fotográfico da C.M.L...

 Com roupagem mais moderna, alguns saloios evidenciam-se agora categoricamente como patos bravos. Os restantes, perdidas as hortas, terciarizaram-se; são saloios de 3.ª. Consente-se que refluam diariamente para os subúrbios em grandes cachos humanos... automovelizados.

Escrito com Bic Laranja às 10:15
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15 comentários:
De Bic Laranja a 21 de Fevereiro de 2007
Caros Manuel e Zé: Agradeço-vos a informação, que desconhecia. Parece-me que no essencial estais de acordo. Assim como assim, a designação 'pato bravo' comporta hoje uma evidente e desgraçada extensão semântica (e geográfica); julgo que saloio também. Une-os, como bem notou o amigo Cunha Porto (fico grato por vê-lo cá) o ódio à árvore... Cumpts. e obrigado aos três.
De Paulo Cunha Porto a 21 de Fevereiro de 2007
Para obedecer aos desejos do Amuigo Bic, não abordarei a designação que os torna potenciais vítimas da epidemia em curso e, mesmo ao arrepio deles, pode passar por erudita citação de Ibsen; antes farei notar que o ódio à árvore continua a marcá-los: é o triunfo da Estrutura, suponho. Abraço.
De a 21 de Fevereiro de 2007
Pegando na deixa, por mim sempre ouvi dizer que os patos bravos são de Tomar e/ou Abrantes. priovavelmente, por serem zonas de origem de muitos construtores civis que singraram em Lisboa.
De Manuel a 21 de Fevereiro de 2007
Uma achega mais: Sempre ouvi que os patos bravos eram de Tomar. Por de lá serem grande parte dos gaioleiros do início do século XX, terá tocado depois aos demais a brava designação. Mas não posso jurá-lo, é claro.
Abraço
De Bic Laranja a 20 de Fevereiro de 2007
Não erro na afirmação. Nem erram a Scarlata ou a Dona T. na interpretação. Errado foi o acto de escrevê-lo desnecessariamente, pois pretendia o enfoque noutro lado. Cumpts.
De T a 20 de Fevereiro de 2007
Não acho que tenha errado no que escreveu. Errado é pensar que patos bravos é só no norte:) E pronto é isso.
De Bic Laranja a 20 de Fevereiro de 2007
Peço desculpa, erro meu! Não devia ter posto os patos bravos. Peço o favor aos benévolos leitores de lerem o parágrafo final assim: "Com roupagem mais moderna, os saloios, perdidas as hortas, terciarizaram-se; são saloios de 3ª. Consente-se que refluam diariamente para os subúrbios em grandes cachos humanos... automovelizados." Obrigado pela compreensão! :)
De T a 20 de Fevereiro de 2007
Patos bravos não têem a ver com zonas geográficas. O meu pai era do sul, vivia no norte e usava esse termo. Como eu uso, sou do norte e vivo em Lisboa há mais anos do que me lembro.
Podem ser saloios e acumular como diz o senhor Bic. Mas pode nada ter a ver com os arredores de Lisboa.
É um termo generalista.

De Bic Laranja a 20 de Fevereiro de 2007
Um saloio cuja horta em sendo loteada dê uma urbanização com nome de quinta disto ou daquilo torna-se um pato bravo? E deixa de ser saloio? E um pato bravo pode desistir duns loteamentos e pedir reclassificação dos terrenos como agrícolas? E tornar-se-á assim num saloio? E poderá acumular os dois cargos? Há saloios que têm vários cargos, inclusive o de pato bravo...
Cumpts. :)
De Scarlata a 20 de Fevereiro de 2007
Ora senhor Bic, os saloios sao por excelencia dos arredores de lisboa. O meu pai que é lisboeta de gema, sempre chamou às pessoas do norte patos bravos... heheheh de maneira que para mim um saloio é de lisboa da mesma forma que um pato bravo é do porto! :)

A gaveta era de madeira fraca... dissolveu-se.
Mas me aguarde... ;-)

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