Sexta-feira, 16 de Junho de 2023

A coisa e ela mesma, do ar… (descubra as diferenças)

 Há muitos anos — alguns 18 talvez — quando topei com a primeira imagem em baixo no archivo fiquei, assim, a olhar… A olhar para ela…
 Fotografia aérea de Lisboa era o título. Ainda é como lá diz.
 Local/morada: cidade, Lisboa, Portugal, que não dizia (como não diz ainda agora) grande coisa.
 A data, anos 50…
 Tudo muito vago. E todavia, eu, que me parecia haver qualquer coisa familiar, ali, naquela imagem, olhava, suspenso de algo, para aquilo… Que raio de cisma!
 O que estava em segundo plano percebia-o mal; prédios na cidade, pois claro, mas esbatidos na neblina.
 E, e os campos em primeiro plano…?
 Os campos ajudam muita vez pouco, têm por habitual poucas referências. Nêste caso havia uma estrada a cruzar outra e a outra parecia, parecia que era, uma via férrea. No quadrante inf. esq. uns armazéns, uma chaminé de fábrica. — Chelas? Xabregas?…
 No quadrante inf. dir. uma casa que parecia ser uma grande quinta… — Do Armador?
 Podia ser… A linha de cintura passa-lhe na encosta deanteira, para lá da Az. da Maruja e do vale…
 E aquela estrada, então, podia bem ela ser o estradão de terra ladeado de oliveiras que vinha pela quinta das Olaias até aos fundos do vale onde sobejava um casal além da linha do combóio — casal já da Quinta dos Machados ou do Dr. Vilaça, onde havia umas gémeas, e onde ia eu com a minha mãe quando ela ia aos ovos.
 Espantoso! Nunca pensei poder tornar a ver aquela estrada… (Só anos mais tarde achei esta.)
 Desde que por 1982 ou lá quando foi que edificaram o clube das Olaias mai-la sua piscina e os courts de ténis, em que me pus por ali a olhar para o limite da praceta e para o muro de baixo dêsse dito clube e a pensar nos campos e na estrada de terra ladeada de oliveiras que fizera ali um cotovelo naquela meia encosta, é que pensei nisso: nunca mais haveria de ver aquela estrada. Nem dela sobraria memória.
 Afinal…

 

Vista aérea das quintas de Chelas ao Areeiro e a Alvalade, Lisboa (Judah Benoliel, c. 1956)
Vista aérea das quintas de Chelas ao Areeiro e a Alvalade, Lisboa, c. 1956.
Judah Benoliel, in archivo photographico da C.M.L.


 Agora, benévolo leitor, se quiser, descubra as diferenças.

Vista aérea das quintas de Chelas ao Areeiro e a Alvalade, Lisboa («Homem à Máquina, fotografia», 1997)
Vista aérea das quintas de Chelas ao Areeiro e a Alvalade, Lisboa, 1997.
«Homem à Máquina, fotografia», in archivo photographico da C.M.L.

 Em cima as quintas e em baixo as ex-quintas do Armador, dos Machados ou do Dr. Vilaça, das Olaias, do Monte do Coxo, do Casal Vistoso, da Montanha &c.
 Na de cima, apesar da neblina, ainda se lá nota o vulto dos arranha-céus do Areeiro.
 Na de 1997, apesar (também) da altitude a que foi tirada e de se até alcançar o contorno da Serra de Sintra no horizonte, os formidáveis mamarrachos do Casal Vistoso não deixam já ver o Areeiro.

Escrito com Bic Laranja às 21:25
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4 comentários:
De [s.n.] a 2 de Novembro de 2023
Meu caro amigo Bic
Mais uma das suas inúmeras publicações deveras interesantes.
Há muito tempo que eu aqui não vinha (perdi o hábito por qualquer razão)e vim agora por via de algo que alguém publicou no Facebook.
Talvez já não se lembre de mim, um "maluquinho das datas" e esta sua publicação levou-me agora a contribuir de alguma forma para uma datação menos errada de duas das duas fotos a preto e branco: aquela que se encontra exposta mais acima e outra a que podemos aceder clicando em "esta".
A primeira é datada de c.1956. A segunda de c. 1955.
Contudo existirá um lapso de tempo de quase 10 anos entre as duas.
Na primeira vê-se ao fundo distintamente a Av. EUA com o seu lado norte já todo construido (os prédios implantados perpendicularmente ao eixo da avenida). Eu nasci em 1955, no cruzamento da Av. Roma com a Av. EUA, e lembro-me perfeitamente de em criança ter assistido à construção de alguns daqueles prédios no final da década de 50.
Já na outra foto a preto e branco datada de c. 1955 nenhum destes prédios existe nem tampouco foi iniciada a construção de qualquer deles. Acresce que pelo menos um dos quatro grandes prédios do cruzamento da Av. Roma/EUA, já se encontrava construído no ano em que eu nasci (1955). Porém, nesta foto ainda não vê nenhum, vendo-se apenas os que foram construidos naquele cruzamento entre o final de anos 40 e 1953 (prédios de 7 andares).
A igreja de São João de Brito, inaugurada em 1955, observa-se de facto nesta foto. Mas provavelmente encontrar-se-ía ainda em fase final de construção, iniciada em 1952.
Conclusão, creio que se a primeira foto peca por grande defeito, a segunda peca por algum defeito...
José Almeida
De [s.n.] a 2 de Novembro de 2023
Peço desculpa por tantas gralhas, erros ortográficos e repetição de palavras, etc. Acontece que enviei sem querer e antes de rever.
No final eu queria dizer "(...) se na primeira peca por grande defeito, na segunda peca por algum excesso."
De Bic Laranja a 6 de Novembro de 2023


Por ventura algum será seu algum destes comentários aqui?
Cumpts.
De Bic Laranja a 6 de Novembro de 2023
Olho vivo! Ainda bem. As suas observações são muito boas e ajudam-me a datar como mais precisão as fotografias.
Vou acertar-lhe as datas.
Muito obrigado!

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