Quarta-feira, 16 de Março de 2016

Ainda uma nota do Alentejo

 Na investigação para a parte portuguesa do Atlas Linguístico da Península Ibérica, Lindley Cintra conta, percorreu todas as províncias portuguesas em 1953 e em  1954 para registar os falares das gentes. À laia de introdução deixou nótulas sumárias do modo e do temperamento local.

 Para responder ao questionário, terá o dialectólogo de procurar alguém que represente com fidelidade o tipo de .falar característico da localidade — em geral um homem ou uma mulher de meia-idade, nascidos no lugar e ali residentes sempre ou quase sempre, analfabetos (de modo a não haver o perigo de estarem influenciados pela linguagem escrita). Do acerto na escolha deste informador depende muitas vezes o êxito de todo o trabalho.

  [...]

 No Alentejo, era fácil escolher os homens que iriam responder ao nosso questionário. Mas por motivos diversos dos de Trás-os-Montes. Aqui [no Alentejo] não precisávamos de procurar os informadores nas suas próprias casas. Não esquecerei nunca as praças centrais de certas vilas alentejanas e os jornaleiros aos magotes, esperando por alguém que os viesse contratar. Não esquecerei também certos funcionários de câmaras municipais a quem eu me tinha dirigido na esperança de que me ajudassem: «Ó F.! Vai ali à praça buscar um desses que para lá estão, um desses mais brutos, que nunca saíram de cá, que nunca viram nada!» E, daí a pouco, para o próprio jornaleiro, já vindo à nossa presença: «Deixa ver os dentes!» (Tratava-se de verificar se tinha algum defeito na dentição que prejudicasse a pronúncia, precaução que éramos sempre obrigados a tomar.) «Tu serves! Amanhã estás a tal hora na pensão onde estão estes senhores! E ouve lá? Lembras-te de algum outro , bruto como tu, e que também lenha boa dentadura?» Dois dias depois, no entanto, o mesmo jornaleiro fazia questão de estar na paragem, à partida da camioneta que nos levava e havia certa comoção na nossa despedida. Tinha sido tratado como homem, como o homem digno, nobre na sua capacidade de sofrer um destino injusto, que um inquérito linguístico tinha bastado para nos revelar.

Luís F. Lindley Cintra, Estudos de Dialectologia Portuguesa, 2.ª ed., , Sá da Costa, [Lisboa], 1995 (Introdução).

Aldeia esquecida, Alentejo (A. pastor, 1940-70)
Aldeia esquecida [Monsaraz], Alentejo, 1940-70.
Artur Pastor, in archivo photographico da C.M.L.

Escrito com Bic Laranja às 12:54
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4 comentários:
De José Lima a 19 de Março de 2016
Belíssimo texto, sobretudo para quem conhece bem o Alentejo, como é o meu caso. E ao lê-lo não é possível uma pessoa deixar de se interrogar, perante o relatado, por onde andaria o tal bruto daí a exactamente vinte anos (1974/75), se então porventura ainda fosse vivo...
De Bic Laranja a 20 de Março de 2016
O bruto é provável que se não chegasse a tanto, mas o civilizado autor da prosa, esse, nesses anos de 74/75, saneava à bruta os colegas da Universidade de Lisboa, por, talvez, acabar com o mundo embrutecido que idealmente o incomodava. Talvez... — O prof. Veríssimo Serrão que o diga.
Cumpts.
De José Lima a 20 de Março de 2016
Sem desmerecer a beleza do texto citado, de Lindley Cintra sempre o soube homem da sinistra; porém, confesso que ignorava que nos idos de 75 tivesse chegado a esse nível de desvarios. De facto, há sempre um "bruto" onde menos se espera... Ou vice-versa...
De Bic Laranja a 21 de Março de 2016
Cometeram-se os excessos mais desvairados. Tanto que Portugal morreu.
Cumpts.

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