Quarta-feira, 14 de Fevereiro de 2018

Aspectos duma Lisboa (esta sim) irreconhecível

  Quem, no advento da I.ª República, seguisse do convento de Arroios pela Rua do Conselheiro Moraes Soares, caminho do Alto de S. João, acharia logo à sua mão esquerda a Horta da Cera, cujo muro comprido tinha a meio um portão mais ou menos coincidente com o actual comêço da Rua de Carlos Mardel. Logo depois entrepunha-se-lhe o muro e as casas da Quinta da Brasileira estreitando a via; estes chãos ocupavam sensivelmente a área delimitada hoje pelas ruas Actor António Cardoso, José Ricardo e Edith Cavell. Por alturas do Poço dos Mouros teria então, ainda à sua mão esquerda, o Retiro do Manoel dos Passarinhos que coincidia pouco mais ou menos com os baixos do actual Largo Mendonça e Costa; este Manoel dos Passarinhos era o tradicional da volta, um castiço com letreiro pintado no frontão da casa a lembrar de não esquecer a vida aos vivos: bons vinhos e petiscos.

Retiro do Manoel dos Passarinhos, Poço dos Mouros (J. Benoliel, c. 1910; A.F.C.M.L., A74731)

  Neste pequeno percurso havia no lado oposto, à direita, primeiro a Quinta do Saraiva com os primeiros prédios de rendimento pequeno-burgueses; ao depois, além da Travessa do Caracol da Penha (actual dos Heroes de Quionga) ou talvez do Poço dos Mouros -- era a Quinta do Manuel Padeiro com o seu muro... Quem ao cimo dela parasse e desse meia volta como para ganhar fôlego, mesmo que não tivesse uma mòlhada de romeiros (republicanos?) a morder nos calcanhares, o panorama era assim.

Cortejo ao Alto de S. João, Rua do Conselheiro Moraes Soares (A. Cunha, c. 1910; A.F.C.M.L. A20188)


Fotografias:

Retiro do Manoel dos Passarinhos, Poço dos Mouros (Joshua Benoliel, c. 1910; A.F.C.M.L., A74731);
Cortejo ao Alto de S. João, Rua do Conselheiro Moraes Soares (Alexandre Cunha, c. 1910; A.F.C.M.L. A20188).

___________
Publicado originalmente em 6/VIII/15 às 10h27 da noute com o titulo «Aspectos duma Lisboa irreconhecível».

Escrito com Bic Laranja às 21:36
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30 comentários:
De ASeve a 7 de Agosto de 2015 às 09:28
Bolas...era só miséria, tudo "ciganada"...
De Bic Laranja a 7 de Agosto de 2015 às 10:19
É só povo. Vejo-o diàriamente. Salva a moda (e as tatuagens), não lhe acho diferença.
Cumpts.
De Bic Laranja a 7 de Agosto de 2015 às 10:34
Mas aquele ali de barbas tem o seu quê de militar de Abril. Nem lhe falharam as mãozinhas nos bolsos...
Cumpts.
De MCV a 7 de Agosto de 2015 às 16:33
Obrigado pela remissão.
Aqui vai a publicidade.
:)
Abraço
De Bic Laranja a 7 de Agosto de 2015 às 17:43
Obrigado eu da outra remissão para cá e desta agora.
Cumpts.
:)
De [s.n.] a 10 de Agosto de 2015 às 02:40
Desculpe sair tema, mas caso o não fizesse perdia a oportunidade e era pena. E este seu espaço é o óptimo para o efeito.

Volto ao assunto "língua portuguesa" e ao seu mau uso. Ou, se se quiser, à péssima verbalização das frases e/ou à dicção imperfeita pelo não emprego sistemático das primeiras sílabas dos vocábulos e também, por vezes, dos artigos que fazem a ligação das palavras nas proposições.

A menina Conceição Queiroz, que aliás nem é má locutora, há-as bem piores, mas por favor não abra demasiado os olhos, se bem que graças a Deus desde há algumas semanas tem vindo a evitar esse tique desagradável principalmente para quem a vê e ouve. E já agora, como também e felizmente tem evitado, continue a não sorrir quando se despede dos telespectadores, está muito bem como faz, simpática, sóbria e séria q.b. Isto porque tem um sorriso feio (devido à dentadura desadequada às suas feições delicadas) pelo que fica muito melhor séria. Sem ofensa.

Esta rapariga, por deficiente aprendizagem na escola ou pelo hábito de ouvir o linguajar do seu país d'origem (penso que seja natural ou descendente de portugueses-africanos, o que não tem nada de mal, ou viveu no Brasil - e que eu não seja mal interpretada) tem o defeito de não pronunciar a primeira sílaba das palavras proferidas nas suas leituras noticiosas e também não emprega os artigos definidos que antecedem certos vocábulos, do mesmo modo que não pronuncia a vogal aberta e/ou as sílabas fonèticamente abertas - acentuadas tònicamente ou não - sobretudo se no início da palavra. Os brasileiros é que falam assim, mas isso é lá com eles. Nós, portugueses, falamos o português de Portugal, não o do Brasil.

A Conceição, por ex., diz: "... (?)manhã saberemos o que vai acontecer", em vez de "... amanhã (com o "a" inicial bem aberto e não fechado ou mudo, como ela pronuncia) saberemos..."; ou "... até 'manhã..."; ou "estamos (?) espera de novas notícias", etc. Por favor, Conceição, veja lá essa dicção, que até nem é má de todo, salvo estes erros fonéticos imperdoáveis numa locutora de notícias.

Aproveito para lhe informar, a ela e a outros/as colegas que cometem o mesmo erro, quando por exemplo contactam colegas em reportagem no exterior e dizem "... colega, qual é o ponto 'de' situação..." Ora quando se quer saber o estado (ou ponto) em que se encontra o combate aos incêndios, ou os estragos provocados pela tempestade/cheias/desabamento de terras/manifestação violenta, etc., trata-se de saber o estado (ou situação) em que se encontra determinado acontecimento CONCRETO E NÃO ABSTRACTO que se verificou ou está a verificar-se naquele preciso momento. Isto significa que esse "estado ou situação concreta (de qualquer coisa)", justamente por sê-lo, tem obrigatòriamente de ser antecedido pela preposição+artigo definido feminino ou masculino, singular ou plural, DO/S ou DA/s, que tem como função emprestar lógica à locução formada pelo substantivo que se lhe segue e do qual faz parte integrante e nunca, jamais, em tempo algum, pela preposição DE. Que no caso em apreço tratar-se-ia/trata-se de uma completa abstracção. Fui clara?

Mais dois conselhos de uma telespectadora atenta, que vê ùnicamente os telejornais. Um para a Conceição e outro para todas as colegas que apresentam as notícias. Se a Conceição quer manter a sua carapinha e está no seu pleno direito, pelo menos que a use curtinha e arranjadinha, para visualmente parecer mais composta e projectar uma imagem mais agradável. Assim, tal como se apresenta, parece ter várias vasouras farfalhudas das antigas, com as cerdas compridas, muito encrespadas, enfiadas na cabeça.

As meninas que apresentam as notícias, por favor deixem de usar decotes até ao umbigo e roupas transparentes! Trata-se de uma questão de decência e de respeito para com os telespectadores. As jornalistas portuuesas não têm a noção das conveniências nem do ridículo. Elas que vejam como se apresentam as locutoras dos telejornais, inglesas e francesas e aprendam. Se querem usar decotes exagerados e extremamente deselegantes, usem-nos quando vão para as discotecas ou para os concertos Rock e nunca para apresentar um telejornal, que, caso ainda não se tenham capacitado, é um cargo que requer a maior seriedade e o máximo profissionalismo.
Maria



De [s.n.] a 10 de Agosto de 2015 às 04:22
Leia-se "vassouras". E há outras faltas. Não reli o que escrevi e para agravar o problema algumas teclas estão sempre a falhar... Sorry:)
Maria
De Bic Laranja a 11 de Agosto de 2015 às 15:55
Esta moça lê o teleponto aos soluços. Falta-lhe naturalidade. E apesar de entoar os 'rrr' à lisboeta (ou à francesa) noto-lhe jeitos de entoação africana. Deve ser disso o que lhe aponta na oralidade e também no penteado.
Cumpts.
De [s.n.] a 12 de Agosto de 2015 às 17:41
É isso:)

O menino(?) Paulo Salvador, da TVI, tem a mania de ser muito moderno nas visitas gastronómicas que anda a fazer pelo País. Quando se depara com as iguarias escolhidas por si ou oferecidos pelos donos e/ou cozinheiros dos restaurantes, sai-se sistemàticamente com exclamações e interjeições extemporâneas e não raro despropositadas face aos pitéus que lhe colocam à frente do nariz. Chega a dar a impressão de nunca ter visto comida decente em toda a sua vida... Vá lá que na introdução ao programa "Observatório do Mundo", de que é apresentador, é mais comedido nas palavras. Mas também não admira, neste caso limita-se a debitar tudo que lhe é enviado através do teleponto, forçando-o a ser mais circunspecto e naturalmente mais agradável de ser escutado...

Este é outro que diz e repete "o ponto 'de' situação"!! (mais um que também deve ter andado pelo Brasil antes de ter ido aterrar nas instalações da TVI). Ó homem!, informe-se por favor!, contacte professores de português mas dos que se tenham licenciado durante o Estado Novo e jamais junto dos muitos, bastantes deles nulidades completas, que tenham feito toda a escolaridade e completado(?) a sua formação académica (salvo as excepções que confirmam a regra) durante os trinta anos e até aos dias de hoje.
Maria
De [s.n.] a 14 de Agosto de 2015 às 05:50
Leia-se: "... durante os últimos trinta anos até aos dias de hoje".
Maria
De Bic Laranja a 14 de Agosto de 2015 às 14:33
Esta gente jornalista consegue diàriamente tornar a linguagem num entrave à comunicação. Um feito de truz!
Cumpts.
De [s.n.] a 16 de Agosto de 2015 às 14:47
:))))
Maria
De José Lima a 15 de Fevereiro de 2018 às 17:03
O tipo com chapéu de coco na extrema-esquerda da fotografia tem um ar jacobino especialmente sinistro. Mais atrás, há também umas personagens com uns chapéus de abas largas que parecem saídos de um “western spaghetti”, desses em que a Sicília e a Calábria passavam por ser o deserto mexicano.
De Valdemar Silva a 15 de Fevereiro de 2018 às 21:36
Alguns à frente desta fotografia, desde crianças descalças e remendadas, o barbaças à Ferreira do Amaral com ar de bufo-rufião e demais 'deixa-me ficar na fotografia', nada têm a ver com, vendo uma banda de música atrás, a solenidade dos promotores do Cortejo ao Alto de S. João.
Mas, mesmo assim é muito interessante ver estas fotografias de Joshua Benoliel.
Valdemar Silva
De Valdemar Silva a 16 de Fevereiro de 2018 às 00:17
Rectifico a autoria das fotos, a do Cortejo é de Alexandre Cunha.
Valdemar Silva
De Bic Laranja a 18 de Fevereiro de 2018 às 10:32
Cumpts.
De Bic Laranja a 18 de Fevereiro de 2018 às 10:24
Os cocos eram janotas republicanos. Burgueses.
Os de chapéu de aba, à ribatejana, eram mais castiços; caciques; uma espécie que se conserva é que só mudou na indumentária — um deles ali ao meio, vai se não é o fadista do célebre quadro de Malhoa...
Os maltrapilhos é que se civilizaram mais: vêem-se ainda agora por ali de andrajos e calças rasgadas, mas as tatuagens e às ferragens nas orelhas e nas ventas dão-lhe um polimento muito mais moderno, chic até...
De [s.n.] a 19 de Fevereiro de 2018 às 04:28
Desculpe deixar uma notinha fora do tema que aqui trouxe.

Alguém que informe Sérgio da Conceição - treinador do F.C.Porto e certamente bom rapaz - que não se diz "isso não tem nada a haver", seria o mesmo se dissesse "isso não tem nada a ter", uma redundância a evitar por se tratar de uma calinada em dircurso oral. Há muita gente que comete o mesmo dislate, nas televisões e até em artigos de jornais, mas felizmente são cada vez menos. Um tal Sacadura, que em empos teve um programa tardio na RTP, também cometia o mesmo erro. Escrevi sobre isso, creio que neste blogo, e ele lá corrigiu a linguagem. O mesmo acontecia com convidados de programas.

Sérgio Conceição disse e repetiu frases, intermediadas por este erro de linguagem, dezenas de vezes nestes últimos dias e ninguém o avisou do erro. As pessoas que o rodeiam não sabem português? Pelo visto não devem saber.
Maria
De Bic Laranja a 19 de Fevereiro de 2018 às 20:29
Disse-me um campeão da língua portuguesa que «ter a ver» é galicismo. O indicado é «ter que ver».
Claro que nos matrecos «ter a haver» é que está bem.
Cumpts. :)
De Valdemar Silva a 19 de Fevereiro de 2018 às 23:17
Talvez pelo hábito, a rapaziada da bola é useira em dar pontapés na gramática, mas desta vez o rapaz teria dito 'isso não tem nada a haver ou não haver' vídeo árbitro.
Cumpts.
Valdemar Silva
De Bic Laranja a 20 de Fevereiro de 2018 às 01:41
«Ter a haver ou não haver» são contas.
Mas não ouvi o matraquilho. Dessintoniza-se-me sempre cá o bestunto quando as TV os põem a palrar.
Cumpts
De [s.n.] a 20 de Fevereiro de 2018 às 04:29
Waldemar Silva, olhe que não foi o que ele quis dizer. Eu ouvi o Sérgio vários dias seguidos, sem pròpriamente o desejar (as televisões intermedeiam quase sempre debates políticos, séries, filmes e até telejornais, por assuntos de bola) e reparei que ele repetiu essa frase sempre igual e no mesmo discurso e com pequeníssimas alterações nos dias seguintes.

Nestes, ora empregando a mesma frase em contextos diversos, claro que sempre relativos ao tema "futebol", ora repetindo o mesmo discurso dos dias anteriores. Repetições da responsabilidade das televisões. Consequentemente fixei bem a dita frase porque sempre verbalizada de modo igual, isto é, substituíndo o verbo "ver" (aquele que devia ter utilizado) pelo "haver".
Maria
De [s.n.] a 20 de Fevereiro de 2018 às 14:39
Leia-se "... com assuntos de bola" e não 'por' assuntos de bola.
Maria
De Valdemar Silva a 20 de Fevereiro de 2018 às 15:08
O meu nome, desde 1943, teve que ser alterado de Waldemar para Valdemar e, embora, agora, possa alterar para Waldemar, não estou para isso.
Numa prova de exame do Secundário, um professor emendou o Valdemar para Waldemar no meu B.I. e assim ficou por uns tempos até começar a notar-se a rasura que me causou alguns problemas e que resolvi com um novo B.I. por ter perdido o anterior.
Quanto ao resto, o que fica é o 'Deve e Haver'.
Valdemar Silva
De [s.n.] a 20 de Fevereiro de 2018 às 18:37
Desculpe de por absoluta distracção, ter trocado o V pelo W no seu. Inicialmente tinha colocado o V, mas pensando estar a grafá-lo de modo errado resolvi alterar a letra inicial. Pelo visto fiz mal.
Maria

Nota: Não se admire que lhe troquem essa consoante no seu nome próprio. Ainda me lembro de ter lido e não vão muitos anos, ele ser grafado desse modo, deve ter sido por isso que o fiz.

Olhe, um dos meus apelidos, por ser invulgar, é difícil de ser compreendido quando é ouvido pela primeira vez. E quando numa loja ou consultório preciso de o transmitir oralmente ele nunca é grafado correctamente. Só depois de o soletrar ou mostrar o B.I. (agora C. do C.) à pessoa que me atende, é que fica perfeito.
De Valdemar Silva a 20 de Fevereiro de 2018 às 20:30
Como simples curiosidade, a 'Bela Flor' Berengária de Portugal, filha do Rei D. Sancho I, casou com o Rei Waldemar II da Dinamarca, em 1214.
Valdemar Silva
De Bic Laranja a 20 de Fevereiro de 2018 às 21:01
Foi repudiada. Parece que era gafa.
Cumpts.
De Valdemar Silva a 20 de Fevereiro de 2018 às 21:53
Parece que foi repudiada por ser arrogante e de grande beleza morena.(berbere lá sul).
Veio a morrer de parto, depois de ter tido quatro filhos três dos quais foram depois Reis da Dinamarca.
Cumpts.
Valdemar Silva
De André Sousa a 21 de Fevereiro de 2018 às 00:44
Caro BIC,
Nesta resposta, você não me critique... até porque vai sair um elogio... e para si (!) ao que cheguei! ;)
Nunca tinha visto um "post" tão concorrido... e você dava um árbitro fantástico... "Aspectos duma Lisboa (esta sim) irreconhecível" de seu título... pois que se fala de "bola", chapéus de coco, Burgueses, leituras de texto, dicções, "W´s" por "V´s" e "V´s" por "W´s" e ainda um "toque" de história, adorei... e estou a ser sincero (!) venham mais destes... 20 de Fevereiro ficou marcado pela bela "moderação" que você fez; pena que ninguém tenha comentado no "post" "Portugal característico" (!) podia-se ter falado de Santana Lopes... olha... e já agora do que se passou no fim-de-semana... digo eu!
Cumprimentos para todos - que não gosto de cumpts.
André Sousa
De Bic Laranja a 21 de Fevereiro de 2018 às 19:46
A final era demónio; repudiadas foram as irmãs, D.ª Teresa e D.ª Mafalda. Veja: https://youtu.be/UJnTMawKquw?t=19m58s .
Cumpts.

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