De [s.n.] a 11 de Março de 2018
Que engraçado trazer este tema à baila. A fazer-me lembrar outros tempos e as terríveis traquinices que os meus irmãos pequenitos praticavam quase diàriamente. Creio que já o abordou anteriormente. Ou não?

Os meus irmãos eram uns terroristas de primeira. Acho que também já aqui contei estas suas peripécias. Como então só havia aulas da parte da manhã, as tardes eram para algum estudo e as horas restantes para irem brincar nas trazeiras das casas, nos quintais e terraços, e fazerem as maiores malandrices que se pode imaginar.

Como havia trazeiras em todos os prédios e no nosso também, era justamente nas várias trazeiras das casas, todas elas com grandes quintais e/ou terraços enormes, que eles as praticavam. Atiravam pedras às janelas dos vizinhos, tudo na brincadeira, depois algumas pedras, ao desviarem-se do alvo, acertavam numa ou noutra cabeça... e lá ía o pequenote para o posto médico fazer o respectivo curativo. Quando o caso não era grave.

Mas por vezes era grave - naquele tempo os pais eram severos quanto a punir os desacatos que os filhos-rapazes praticavam e caso fizessem estragos nas janelas dos vizinhos (e estes chamavam sempre a polícia) havia tareia da grossa à noite, quando os pais regressavam do trabalho - casos houve em que, sobretudo o mais crescidinho dos meus irmãos, de facto o mais terrível, por várias vezes o nosso Pai teve que o ir buscar à Esquadra! Eu era a mais pequenina deles todos e aquelas cenas faziam-me uma confusão dos diabos e ainda me lembro delas como se fosse hoje.

O nosso Pai, que educava os filhos com todas as regras do civismo e do respeito pelo próximo, não suportava tanto terrorismo e falta de respeito pelos vizinhos. À noite, quando o Pai chegava para jantar e a Mãe contava as malandrices que os filhos tinham praticado durante o dia, bem, quem me lê hoje nem acredita no que sucedia!, o Pai pegava na "menina dos cinco olhos", grossa e pesada e estava sempre ali à mão para ser usada e era-o dia sim dia não..., e dava uma boas reguadas em cada mão nesses dois meus irmãos (o mais velho apanhava por tabela, por ter praticado actos censuráveis mas também por não ter impedido o irmão mais novo de os praticar.

Naquela altura já morávamos na Avenida Alm. Reis, perto do Areeiro e os eléctricos subiam e desciam a Avenida. Alguns miúdos tinham o péssimo hábito de se pendurar nos eléctricos por brincadeira e uns, para não serem apelidados de medricas, imitavam os primeiros e faziam o mesmo. Um dia um dos meus irmãos levou um empurrão doutro miúdo mais brutinho e ficou com o pé debaixo da roda trazeira do dito.

Claro que foi logo para o Hospital e por lá ficou uns dias. Felizmente que só perdeu um dedo. Escusado será dizer que por se ter tratado de um caso tão grave, com resultados que podiam ter sido fatais, desta vez o nosso Pai lá o privou das reguadas da praxe... e nem podia ter sido doutro modo. Mas que ficou zangado por o filho se ter pendurado no eléctrico, o que nunca devia ter feito, com as péssimas consequências que tal acto originou, lá isso ficou...

O nosso Pai era muito rigoroso com a educação dos filhos e não admitia desrespeito de qualquer espécie em relação aos mais velhos nem ao próximo. Por isso mesmo foi um extraordinário Pai cuja formação moral superior, através de ensinamentos cívicos e morais ao mais alto nível, foi transmitida tal e qual a cada um dos seus filhos.

Isto era o que acontecia com os miúdos, os mais rebeldes, daqueles tempos:) Imagine-se o que seria hoje se os pais dessem reguadas aos filhos por estes praticarem desacatos nas janelas dos vizinhos e outras traquinices do estilo..., de certeza que os 'serviços de protecção de menores'... retirariam imediatamente esses filhos aos pais indo depositá-los numa qualquer instituição do Estado!

E nesta ficariam a apodrecer até à idade adulta, com consequências psicológicas gravíssimas, como acontece a muitas crianças que hoje são retiradas aos pais pelas razões mais fúteis e mesmo ilegais, como é do conhecimento de todos nós.
Maria
De Valdemar Silva a 12 de Março de 2018
Parece que as reguadas não produziam o efeito desejado, o mano partia à pedrada os vidros das janelas das vizinhas e até perdeu um dedo a andar à pendura nos eléctricos.

Valdemar Silva
De [s.n.] a 12 de Março de 2018
Olhe que produziram o efeito desejado, sim senhor... mas de facto não por muito tempo. As traquinices estavam-lhes na massa do sangue, como soe dizer-se e repetiram-se até terem atingido a pré-adolescência, altura em que adquiriram outros interesses, praticar vários desportos e sobretudo jogar futebol, hábito que se prolongou por muitos anos com alguns intervalos pelo meio devido às profissões de cada um deles.

Este meu irmão (o mais velho, aquele que era mais terrorista!), muito mais tarde e depois de uns anos sem praticar o seu desporto favorito, voltou a jogar por amadorismo num clube dos arredores de Lisboa por adorar futebol e também para se sentir bem fìsicamente. E muito mais tarde, depois de anos de trabalho e bem antes de se reformar voltou a jogar futebol nas horas vagas por amor a este desporto e também por se sentir bem com esse exercício físico.

O amor por este desporto foi transmitido pelo nosso Pai a todos os filhos e filhas (estas nunca lhe ligaram muito, diga-se em abono da verdade...), pois durante os seus estudos em Coimbra praticou-o sempre e fê-lo até ter terminado os estudos. E pela vida fora nunca mais deixou de ser um fanático por futebol e já adulto pelo seu/nosso adorado Sporting:) clube pelo qual sempre foi um adepto incondicional ainda em Coimbra e de certeza absoluta por influência do Visconde...

Para que se veja o jeitaço que o meu irmão tinha como jogador, o clube onde jogava nas horas vagas foi várias vezes jogar ao estrangeiro e, por exemplo, em Itália perante o jeito que ele tinha para a bola e também pelo seu aspecto físico, comparavam-no a um tal "Simone" (os colegas de cá pronunciavam Simoni) que jogava num clube lá do sítio e que parece ter sido muito bom jogador e fìsicamene era igual ao meu irmão. Foi assim que ele ficou a ser conhecido tanto lá como cá, no clube onde jogava.

Não admira que o meu irmão passasse por italiano, eu própria também parece que me assemelho a elas (o dono deste espaço sabe do que estou a falar;-).
Uma vez em Londres, estava eu a correr para apanhar o metro e um rapaz italiano, estudante, segundo me revelou, põs-se a correr ao meu lado e sai-se com esta "lei italiana?" Uma simpatia de rapaz e muito educado, caso contrário nem nunca lhe responderia.

Ficámos amigos e chegámos a trocar correspondência durante algum tempo, quando eu já tinha regressado a Portugal. E tem piada isto das parecenças, a minha filha também passa perfeitamente por uma italiana e por sinal é bem bonita!
Maria
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