Quinta-feira, 28 de Maio de 2015

Da sombra mental

A7298.jpg

 
 Do atávico horror à árvore da saloiada alfacinha já falava Raul Proença. Ainda assim se lhe reconhece na esperteza saloia alguma forma de inteligência. Mas de se podarem ferozmente árvores frondosas quando temos aí o Verão à porta não vislumbro nem esperteza de espécie alguma. Só talvez inveja... da sombra das frondosas árvores competindo com a dos bestuntos destes saloios em má hora alcatruzados a presidentes da junta.
 Calcule o benévolo leitor que deram, agora, na alta Primavera, essas almas de vistas curtas e óculos ray ban em podar as árvores do jardim ante o Lyceu Camões. Um afã tão grande aproveitava-se se arranjassem antes a calçada dos passeios de Arroios que bem mais precisada está.

(Fotografia do coreto do jardim da Cruz do Tabuado de J.A.L. Bárcia, in archivo photographico da C.M.L., post 1909.)

 

Adenda pertinente:

 Portugal praticamente não tem floresta. O que temos são plantações de pinheiros e eucaliptos. É caso único no Ocidente pois até nos EUA cerca de 50% da floresta é pública e nativa. E em Portugal, o que há? A Margaraça, que ocupa apenas uma encosta na serra do Açor, ou a mata da Albergaria, a ocupar uma reduzida percentagem do único Parque Nacional que temos.

 Nas nossas serras a floresta nativa traria a necessária protecção aos solos contra a erosão, prevenindo assim a ocorrência de cheias. E uma boa gestão florestal geraria emprego e riqueza.

 Não é apenas problema dos arredores de Lisboa. No Alentejo e Algarve quase extinguiram os carvalhos. Na região Centro desnudaram as serras. No Norte houve mais respeito pela floresta mas depois veio o eucalipto, essa praga. As serras algarvias são hoje um mar de estevas.

 Faltam também árvores nas bermas das estradas, mas com as «limpezas» as autarquias não as deixam crescer. E nas sebes que dividem os terrenos ou nas galerias rípicolas, a acompanhar os cursos de água.

 E por que motivo em Portugal as autarquias não utilizam árvores portuguesas nos jardins, nas cidades? A nossa azinheira é usada em jardins na Irlanda e o nosso Quercus canariensis, árvore nativa da serra de Monchique, está em jardins ingleses. Temos o azevinho, o amieiro, o castanheiro ou o ulmeiro. Há ainda a rainha das árvores do Norte, o carvalho-roble, que dominou a paisagem portuguesa a Norte do sistema montanhoso Sintra-Montejunto-Estrela, estando ainda presente a Sul onde as condições climáticas permitem a sua ocorrência

 Os portugueses não conhecem a sua flora nativa e dedicam-se a espalhar espécies vegetais introduzidas que depois se tornam invasoras e causam prejuízos económicos e ambientais incalculáveis. Renegamos o que é nosso, ansiamos pelo que vem de fora. Isto diz muito sobre o estado em que nos encontramos.

(Do leitor Luís às 12h33.)

Escrito com Bic Laranja às 11:45
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16 comentários:
De Luís a 28 de Maio de 2015
Portugal praticamente não tem floresta. O que temos são plantações de pinheiros e eucaliptos. É caso único no Ocidente pois até nos EUA cerca de 50% da floresta é pública e nativa. E em Portugal, o que há? A Margaraça, que ocupa apenas uma encosta na serra do Açor, ou a mata da Albergaria, a ocupar uma reduzida percentagem do único Parque Nacional que temos.

Nas nossas serras a floresta nativa traria a necessária protecção aos solos contra a erosão, prevenindo assim a ocorrência de cheias. E uma boa gestão florestal geraria emprego e riqueza.

Não é apenas problema dos arredores de Lisboa. No Alentejo e Algarve quase extinguiram os carvalhos. Na região Centro desnudaram as serras. No Norte houve mais respeito pela floresta mas depois veio o eucalipto, essa praga. As serras algarvias são hoje um mar de estevas.

Faltam também árvores nas bermas das estradas, mas com as «limpezas» as autarquias não as deixam crescer. E nas sebes que dividem os terrenos ou nas galerias rípicolas, a acompanhar os cursos de água.

E por que motivo em Portugal as autarquias não utilizam árvores portuguesas nos jardins, nas cidades? A nossa azinheira é usada em jardins na Irlanda e o nosso Quercus canariensis, árvore nativa da serra de Monchique, está em jardins ingleses. Temos o azevinho, o amieiro, o castanheiro ou o ulmeiro. Há ainda a rainha das árvores do Norte, o carvalho-roble, que dominou a paisagem portuguesa a Norte do sistema montanhoso Sintra-Montejunto-Estrela, estando ainda presente a Sul onde as condições climáticas permitem a sua ocorrência.

Os portugueses não conhecem a sua flora nativa e dedicam-se a espalhar espécies vegetais introduzidas que depois se tornam invasoras e causam prejuízos económicos e ambientais incalculáveis. Renegamos o que é nosso, ansiamos pelo que vem de fora. Isto diz muito sobre o estado em que nos encontramos.
De Bic Laranja a 28 de Maio de 2015
Comentário pertinentíssimo. Destaco-o em adenda.
Obrigado!
De muja a 28 de Maio de 2015
Renegamos o que é nosso, ansiamos pelo que vem de fora. Isto diz muito sobre o estado em que nos encontramos.

Não diz muito, diz tudo. É nas árvores como em tudo o resto.

De Bic Laranja a 28 de Maio de 2015
Ocorreu-me exactamente isso quando li o comentário do leitor. É o portugalinho solúvel em toda a medida como «best practice» do suicídio colevctivo.
Cumpts.
De muja a 30 de Maio de 2015
suicídio colectivo, talvez...

Mas ainda há quem resista ainda e sempre ao invasor.

Podemos estar a morrer, mas ainda não morremos.

Obrigado.
De Bic Laranja a 30 de Maio de 2015
Mas sobramos poucos. É só os suicidas parecem arregimentar...
Cumpts.
De Marcos Pinho de Escobar a 28 de Maio de 2015
Podaram tudo... o Ultramar, as grandes empresas, a agricultura, a História, a identidade, a soberania...a Língua Portuguesa. E não vão parar por aí.
Abraço amigo
De Bic Laranja a 28 de Maio de 2015
E podam haveres enquanto cá houver gente.
Cumpts.
De Rosa a 29 de Maio de 2015
E promove-se oficialmente o medo da árvore, essa terrível provocadora de alergias, doenças, sujidade e que até é capaz de complicados exercícios de pontaria aos capôs dos inofensivos automóveis. Um medo que não é mais do que ignorância mas que se entranha, corrompe e compromete o futuro.
De Bic Laranja a 29 de Maio de 2015
Promove-se o empreendedorismo. A lenha há-de estar a render...
Rosa, as árvores que na fotografia vejo circundam o coreto são plátanos, consegue dizer? Tive curiosidade de veras que o circundam actualmente e vi que são jacarandás. Tenrinhos.
Confere com o que o leior Luís diz da troca de espécies nativas por estranhas...?
Cumpts.
De rosa a 29 de Maio de 2015
Tem toda a razão, eu arrisco com alguma confiança que as árvores da fotografia são Bordos (Acer pseudoplatanus) uma espécie espontânea em Portugal a norte do Tejo. Já os Jacarandás...Estão na moda.
De Bic Laranja a 29 de Maio de 2015
Bordos pseudoplátanos. No mínimo posso pseudo-orgulhar-me.

Cumpts.
De Bic laranja a 30 de Maio de 2015
... De não haver andado longe.
De gato a 29 de Maio de 2015
O jacarandá é uma árvore originária da Argentina. Clima próximo do do norte da Europa (não é Escandinávia...)
Tem um ritmo que é importantíssimo para quem anda em Lisboa de carro (que não é seu, mas tem chauffeur).
Por voltas de Maio flora. São flores com resina que as agarram a tudo (solas de sapatos, carros, etc.)
Num mês acabam e ficam umas árvores de galhos nús que são preciosas para verter sombra sobre os transeuntes.
Se não houver humidade ou um chovisco, o pedestre livra-se de escorregar na pasta azul das flores no solo.
Grandes palhaços camarários.
Abraço
De Rosa a 29 de Maio de 2015
Não me venham cá agora dizer mal dos Jacarandás. Aquilo é árvore para fazer sorrir um morto. ;)
De Bic Laranja a 29 de Maio de 2015
Em Maio, sim! As flores são um regalo e atapetam o chão. -- Atapetavam, não foram os automóveis.
Em Junho seguem-se as tipuanas... -- Vê-se Lisboa mais e mais exótica agora, até se lhe somamos os excursionistas...
Cumpts. :)

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