Sábado, 25 de Abril de 2015

Do grande acidente nacional

Creche, Angola, ant. 1974. S.E.I.T., s/ n.º, cx. 453, env. 1

  Nas horas de tristeza íntima pergunto muitas vezes por que razão o Poder não teve força no dia 25 de Abril para impor a legalidade. Porque não foram tomadas as medidas urgentes, mesmo com o recurso à força, para impedir a Revolução? Quero eu dizer que se me tornava difícil aceitar a tese do fatalismo com que muitos explicam a queda do regime. Mas lendo agora o seu Depoimento, tenho de concluir que o recurso aos meios legais não era uma solução bastante para evitar tamanha desgraça.

  Portugal não estava doente, como para aí se propala. Mas a subversão de tal forma se havia infiltrado nas escolas, nas repartições e nas esferas burguesas que o espírito da mudança acabou produzir os seus frutos. Já não falo na estratégia das potências estrangeiras que manobravam contra os reais interesses do país, desacreditando o poder vigente e deturpando a realidade da situação. O brilhante panorama do Portugal de hoje mostra à evidência o alcance da traição, com a loucura a que conduziu a acção dos falsos profetas, muitos aliados do imperialismo internacional. O anseio da democracia não passou de um mito para embebedar as multidões, pois o único objectivo dos Abrilinos foi o de entregar a Guiné, Angola e Moçambique com as suas indefesas populações, aos chamados movimentos de libertação.
  Tínhamos, portanto, de sofrer esta grande provação a mais trágica da vida multissecular da Nação portuguesa. Quebrou ela os valores do patriotismo, destruiu um património moral e instilou o ódio entre as classes sociais -- até mesmo no seio das das famílias. O castigo foi demasiado cruel para quem não o merecia e não há vislumbre de esperança para redenção por que os portugueses tanto anseiam. Será já isto o começo da longa noite que a morte reservada aos que perderam as amarras da História? Não sou profeta, nem o pretendo ser, mas considero que Portugal virou a última página do destino e que o fez com baixeza, porque não curou do mais sagrado duma comunidade que é a vida e o futuro dos seus filhos. Quem hoje se gaba de ter encerrado o «ciclo do Império», seria melhor que se visse ao espelho da consciência que não perdoa aos néscios e aos traidores o crime que praticaram.
  Eu avalio quanto o Senhor Professor não há-de sofrer quando pensa na situação actual. Mas só tem motivo para se considerar tranquilo de consciência, porque se deu de alma e coração ao nosso País, porque foi digno na sua maneira de governar e nenhuma culpa lhe podem assacar os inimigos. Nem sempre se tomaram as decisões enérgicas que o decurso da situação exigia? Permitiu-se a muitos que ocupavam alto cargos políticos a traição que eram incapazes de dissimular? Foi-se longe de mais no jogo da tolerância com os adversários do regime? Nada disso pode atingir o Senhor Professor que salvaguardou o respeito pelos valores fundamentais e nunca recorreu a métodos lesivos dos direitos humanos. Ao contrário do que fazem agora os libertários do 25 de Abril e do 28 de Setembro. Dá-me pois vontade de sorrir quando ouço a mentira constantemente repetida de ser «fascista» o antigo regime. Se o fosse realmente não teria soçobrado de maneira tão ingénua pois usando as medidas ao seu dispor ter-se-ia batido e, sem dúvida, ganho a batalha da revolução.

Joaquim Veríssimo Serrão, «IX. Carta do autor ao Professor Marcello Caetano, Lisboa 12.Fev.75», in Correspondência com Marcello Caetano, 2.ª ed., Lisboa, Bertrand, 1995, pp. 29-30.

Retornados, Lisboa (A Cunha, 1975).jpg

 


Fotografias:
Creche
, Angola, ant. 1974. S.E.I.T., s/ n.º, cx. 453, env. 1, por gentileza do Sr. Ant.º Fernandes.
Portugueses retornados de África, Lisboa, 1975.
Alfredo Cunha, in Público, como ilustração duma qualquer história de sucesso que alguém quis contar.

Escrito com Bic Laranja às 09:38
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4 comentários:
De Joe Bernard a 25 de Abril de 2015 às 15:43
Nem mais!!!
De Bic Laranja a 25 de Abril de 2015 às 18:19
:) Cumpts.
De Real a 25 de Abril de 2015 às 22:10
«(...)pois o único objectivo dos Abrilinos foi o de entregar a Guiné, Angola e Moçambique com as suas indefesas populações, aos chamados movimentos de libertação.» Eu acrescentaria também Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor.
De Bic Laranja a 26 de Abril de 2015 às 21:52
E Macau. -- Consta que os chins se admiraram de ver os nossos democratas tão amigos do alheio a oferecerem-lhe de volta Macau quando a China nem no pedia.
E reconheceram pressurosos a soberania indiana sobre o Estado Português da Índia, que sentença arbitral do Tribunal Internacional da Haia reconhecera a Portugal.
Só não deram independência às ilhas adjacentes porque por só haverem brancos tiveram de sujeitar.
Cumpts.

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