Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2015

Dos Pacatos na Estrada de Sacavém às Amoreiras

  Ingressemos desta vez com eles no José dos Pacatos e declinemos os seus nomes.
  Cabe o lugar de honra a D. João da Câmara, o grande dramaturgo dos «Velhos», corifeu de feição singular pela inegualável magia do seu carácter, pela ideal doçura do seu coração.
  Fialho de Almeida, o cintilante crítico dos «Gatos», o empolgante orador Alexandre Braga, Augusto Gil, o delicioso lírico tão cedo arrebatado à rima.
  O celebrado Alberto Costa (Pad Zé) pelo seu ardor político e pelos seus ditos.
  Figueiredo, o famoso «Pinturas».
  Jaime Batalha Reis, diplomata que evidenciou inexcedíveis qualidades no desempenho da sua difícil missão.
  António Arroio, o simpático e conspícuo ordenador das «Notas de Portugal», que não só sobressairam em valor intrínseco, mas conquistaram o apreço de escritores e artistas.
  O Dr. João Barreira, erudito professor de História de Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, o único sobrevivente daquela plêiade que tanto honrou as letras pátrias.
  Após a sua chegada, o coelho ia para a caçarola e na almácega nadava a alface a refrescar.
  Na mesa, com o perfil da Senhora do Monte a distância, começava o cavaco empolgante, que a despedida do Sol no ocaso não sustava e o assomo da plácida lua não enfraquecia, deslisando num arroubo emotivo, contagioso, que identificava os corações em abraço fraterno.
  Alexandre Braga, o arrebatado causídico, descobrira que a partida dos eléctricos da paragem
términus do Areeiro se ouvia, encostando o ouvido a um poste de ferro colocado no portão do restaurante.
  Nunca deixava de executar essa manobra auditiva; por isso, quando se levantavam da mesa, diziam ao grande orador:
  — Oh Alexandre, vai lá pôr o ouvido a ver se o carro já partiu do Areeiro?
  Mas, muitas vezes, o trajecto fazia-se a pé, com versos lançados ao ar, sobretudo quando a estrada era banhada pela inspiradora lua cheia.
  Cabe ligeira referência a um curioso incidente:
  Uma tarde, Jaime Batalha Reis libou além da conta, ficando em estado deveras esfusiante.
  Tal atitude alarmou António Arroio. Estavam já todos no Rossio e, receando este um desacato que pusesse em foco o nome do Cônsul de Portugal em New-Castle, resolveu que fossem acabar a noite à sua casa das Amoreiras.
  Meteram-se numa tipóia e quem havia de saltar para a almofada a guiar os cavalicoques? O Pad Zé.
  As pilecas faziam lume pela Avenida acima e nas mãos do Pad Zé o chicote estalava cada vez mais.
  Batalha Reis pôs-se então a clamar de dentro da tipóia:
  — Oh Pad Zé! Parta-me a cabeça mas com método. Olhe que eu sou evolucionista!
  Chegados às Amoreiras, Batalha Reis, que ia na frente, disse para a senhora que veio abrir a porta:
  — Vem tudo bêbedo!

João Monteiro, A Estrada de Sacavém, Lisboa, Grupo «Amigos de Lisboa», 1952, pp. 52-53.

Os Pacatos na Estr. de Sacavém (E. Portugal, 193...)
Os Pacatos na Estrada de Sacavém, Lisboa, 193...
Espólio de Eduardo Portugal, in archivo photographico da C.M.L.

Escrito com Bic Laranja às 18:52
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9 comentários:
De Inspector Jaap a 1 de Março de 2015 às 11:52
Faz bem à alma ler textos assim…
Ponha o caro Bic um qualquer desses licenciados de cordel que por aqui pululam, políticos ou não, a ler este suculento naco de prosa, e vai ver quantas vezes irá o dito ao dicionário (que ainda os há) para tirar os significados das palavras que desconhece!
O que somos e o que já fomos! Bolas!
Cumpts
De Bic Laranja a 1 de Março de 2015 às 15:08
Todo livrinho de João Monteiro é assim. Um mimo de estilo e de pittoresco acerca dos retiros da Estr. de Sacavém e da Lisboa das hortas. Uma dor de alma que não sobre nada de nada do que o autor descreve nem relata. Tudo, tudo foi apagado. Só este livrinho e dispersos testemunhos para nos contar como era.
Cumpts.
De Inspector Jaap a 1 de Março de 2015 às 17:08
Tristemente tem o caro Bic mais do que razão; ele agora é mais livros de futebolistas, pederastistas e afins.
Felizmente que ainda vai havendo gente que tem a grandeza de alma de partilhar estes tesouros com o povoléu; obrigado, pois, por isso.
Cumpts
De Bic Laranja a 2 de Março de 2015 às 00:00
O livro é raro, nem sabia que existia até ao ano passado, em que tropecei nele num alfarrabista. Raro e sem reedição, como é de obrigação em tudo o que há precioso na olisipografia. Felizmente que me apareceu.
Cumpts.
De Bic Laranja a 2 de Março de 2015 às 00:00
Obrigado eu, do seu apreço.
De André Santos a 2 de Março de 2015 às 23:07
Poderá esta imagem ser a do actual cruzamento da Rua Carlos José Barreiros com a Travessa das Amoreiras a Arroios?

https://www.google.pt/maps/@38.733428,-9.136396,3a,75y,7.75h,90.14t/data=!3m4!1e1!3m2!1sw9FtTa_VolbJcOemeXOKzw!2e0?hl=pt-PT

Cumprimentos

De Bic Laranja a 3 de Março de 2015 às 17:00
Não. Os chãos e as casas que se vêem da imagem estão hoje soterrados nos caboucos da Almirante Reis, da Carlos Mardel e da R. Augusto Machado, logo acima da Alameda.
Não sobrou nada.
O retiro e quinta dos Pacatos era entre a Estrada de Sacavém e Az. do Areeiro (actual R. Abade Faria).
De Bic Laranja a 3 de Março de 2015 às 19:43
.. vêem na imagem...
De Bic Laranja a 3 de Março de 2015 às 19:43
Cumpts.

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