Quarta-feira, 19 de Agosto de 2015

O nicho da imagem

 N' O Diabo da semana passada sugeriam um livro Segredos de Lisboa (Inês Ribeiro e Raquel Policarpo, Esfera dos Livros) nestes termos:

« Uma Lisboa desconhecida está à nossa espera num museu, num parque de estacionamento ou até numa improvável casa de banho [...] No Largo da Sé desça á casa de banho pública e depare-se com vestígios de um prédio anterior ao terramoto [...] Inês Ribeiro e Raquel Policarpo guiam-nos por uma Lisboa repleta de segredos &c. &c. »

 Casas de banho... Confronte-se o estilo com o de Júlio de Castilho a expor novidades antigas, mesmo se até melindrosas.
 O nicho da imagem era na esquina do Caracol da Penha com a Rua de Arroios e deu nome ao sítio, estendendo-se a uma quinta adjacente, a Quinta da Imagem de que já falei e tornei a falar: eis o que nos o mestre Júlio de Castliho contou. E como contava:

« O próprio Caracol da Penha (que parece tão calado), se o interrogarmos, dir-nos-á que ainda em 1857 não era mais que uma estreita e pitoresca azinhaga [...] Ora em 1753 morava no seu palácio junto ao campo de Santa Bárbara, defronte do senhor de Murça (o prédio Mesquitela) o conde de S. Miguel, velho; muito perto ficava o nicho da imagem; aí tinha então uma tenda certa mulher, cuja filha entreteve com o conde Álvaro um romance que não vem para aquí, e que desfechou afinal em ter de se recolher a tendeirinha para não sei que mosteiro.
   Convença-se o leitor que tudo são romances neste mundo, e de que as esquinas de uma cidade, grande e populosa como esta, têm mais histórias para contar do que Dumas ou Júlio Denís. O caso todo está em saber prestar ouvidos.»

Lisboa Antiga. Bairros Orientais, 2.ª ed., v. IX, C.M.L., Lisboa, 1937, p. 172.

 Cheira-me todavia que os ouvidos hoje perdem muito por falta de faro para contar o antigo, não sei... Ouvir as esquinas da cidade podia soar como cheirar aquela casa de banho d' O Diabo e no entanto...
 Deixo a imagem encantada do misterioso nicho da dita como possìvelmente impressionou o mestre Júlio de Castilho e lhe deu azo a várias histórias. Desencantei-a no archivo photographico. Infelizmente não na achei[-a] com melhor qualidade e consta[ndo] que a chapa do negativo em vidro se partiu.

 

Nicho da imagem, Rua de Arroios, 86 (A.P.C.M.L., c. 1900; A1300
Nicho da imagem outrora no gaveto da R. de Arroios com a Marques da Silva (Caracol da Penha)
, Lisboa, c. 1900.

Photographo não ident., in archivo photographico da C.M.L., A1300.

 

(Revisto. Remissões às dez e meia. Ampliação em 21, ao ¼ para as 2 da tarde, que permite ver o vulto uma quitandeira na soleira da porta que dava para o Caracol da Penha; identificar a placa de prohibido affixar annuncios n'esta propriedade e reconhecer uma caravela foreira à direita da sacada, no lado oposto do nicho da imagem.)

Escrito com Bic Laranja às 19:34
Verbete | comentar
5 comentários:
De Rúben B Oliveira a 20 de Agosto de 2015
Conhece esta imagem?
https://www.facebook.com/lisboadeantigamente/photos/p.1856585764566890/1856585764566890/?type=1&theater
De Bic Laranja a 20 de Agosto de 2015
Conheço. É a Vila Imagem, isto é, a casa da velha horta, ao depois quinta da Imagem.

A legenda que lá puseram no livro das fuças a acompanhá-la, descreve antes é a «casa de aspecto mesquinho» deste verbete. Mas esta pobre casa com o nicho das alminhas não lhes cativou a vista, de modo que, deram em brilhar com o casarão da quinta.

:)

Obrigado da remissão!
De Bic Laranja a 28 de Março de 2016
De da Maia a 21 de Agosto de 2015
Meu caro,
uma coisa é informar, outra coisa é vender informação.

Quem pretende informar não se arma em guia, simplesmente informa o que encontrou, como encontrou. E se dá a sua opinião é porque cuidou de pensar no assunto.

Quem quer vender informação, só cuida que passe por boa. Pouco interessa pensar mais no assunto informado, porque o assunto é a venda.
Para isso usa técnicas bem conhecidas dos feirantes, e que foram recauchutadas sob o epíteto de "marketing". Essas linhas que transcreve podem bem constar de uma típica contracapa... e têm tanto de inovador no discurso, quanto o da banca do feirante que nos convidava a conhecer a mulher barbuda.

Muito prezo quem dá o seu tempo a disponibilizar informação, e a torná-la acessível a todos, ao custo de um click.
Bem haja.
De Bic Laranja a 21 de Agosto de 2015
Preciosa reflexão sobre as mulheres barbudas em negócios de feira.
O clique aqui é ao preço do interesse ou da curiosidade do freguês e é também a forma de o menos maçar.
Obrigado!

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