Terça-feira, 8 de Outubro de 2019

Obrigado! Obrigado!

Amália, Portela de Sacavém — © 2019
Amália,
Portela de Sacavém — © 2019
(Caricatura de António)


Addendum:
 Considerações sobre a acentuação gráfica na legenda, que me ocorrem expor aqui à margem do tema do verbete.

  1. Amália e António levam acento agudo para marcar a sílaba tónica porque são esdrúxulos (Base XIX da Ortografia Portuguesa).

    (Há quem diga que são falsos esdrúxulos porque a tónica não bate na antepenúltima sílaba, mas antes na penúltima. Não vou agora perder-me nesse somenos. Tomo-os por esdrúxulos simplesmente à conta de que as sequências vocálicas finais -li-a e -ni-o dão duas sílabas em cada caso, quando não, seriam ditongos; ora a Base XIII da Ortografia Portuguesa é clara na enunciação dos ditongos e, quem na leia, verá que aquelas sequências -ia e -io lá nem constam.)

  2. Sacavém (como Santarém e Belém, para ilustrar com dois exemplozinhos de cidades [lugares é mais correcto] de Portugal e do Brasil) — do grupo de ditongos constituídos por vogal e consoante nasal equivalente a ressonância enunciados na Base XIII, 2.º b da de suso dita Ortografia Portuguesa) — leva (levam) acento agudo na última sílaba para marcar o ditongo nasal -em (pronunciado ãe, ẽi ou ẽ, em Portugal como no Brasil).

 Ora, que há nisto? — perguntará o benévolo leitor.

 O que há nisto é que o acento agudo em Amália é pacífico, como a própria Amália. Já o acento agudo de António é muito, mas muito complicado. Para brasileiros. — Porquê? — Porque o brasileiro pronuncia aquele ozinho tónico de António como ô. E como diz ô, tem fatalmente de escrever Antônio, com o particularzinho, seu, acento circunflexo. É duma regrinha do falar brasileiro que tende a fechar o timbre das vogais a, e e o quando antecedem elas uma consoante nasal; e então dizem grêmio, Antônio e por aí afora. Ai, porém, de quem lhes diga, como vem escrito e aprovado até por académicos brasileiros de nomeada na Base XIX da Ortografia da Língua Portuguesa:

 As vogais tónicas a, e e  o de vocábulos proparoxítonos [palavrão esdrúxulo para dizer esdrúxulos], levam acento circunflexo, quando são seguidas de sílaba iniciada por consoante nasal e soam invariàvelmente fechadas nas pronúncias normais de Portugal e do Brasil: câmara, pânico, pirâmide; fêmea, sêmea, sêmola; cômoro. Mas levam, diversamente, acento agudo, que nesse caso serve apenas para indicar a tonicidade [tonicidade, friso, para marcar a sílaba tónica e não o timbre da vogal], sempre que, encontrando-se na mesma posição, não soam, todavia, com timbre invariável: Dánae, endémico, género, proémio; fenómeno, macedónio, trinómio [e, já agora, António].
 Regulam-se por um ou outro destes dois empregos os vocábulos paroxítonos que, precisando de acentuação gráfica, se encontrem em condições idênticas. Assim: ânus, certâmen, tentâmen; mas Ámon, bónus, Vénus.

Rebelo Gonçalves, Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa, Atlântida, Coimbra, 1947, Suplemento, p. 37. Os apartes, o sublinhado e o normando (ou negrito, à brasileira) são meus.

 Aonde quero chegar como este arrazoado é a Santarém e Belém, do Pará. Ao que sabe decerto o benévolo leitor, nestes vocábulos como em inúmeros outros, como além, alguém, aquém, ninguém, porém, também &c. (ah! e Sacavém, que foi onde comecei), cujo ditongo -em  é pronunciado quase invariavelmente no Brasil com e nasalado (ẽ) e grafado sem reservas com acento agudo, o dito acento agudo não faz cócegas rigorosamente nenhumas, tanto em Portugal como no Brasil. Só nos esdrúxulos, como endémico, género, proémio; fenómeno, macedónio, trinómio e, já agora, António, é que o acento agudo a indicar mera tonicidade dava comichão aos brasileiros. Mesmo depois de 1990 e até… sempre.

 Era só.

Escrito com Bic Laranja às 20:23
Verbete | comentar
3 comentários:
De [s.n.] a 9 de Outubro de 2019 às 17:24
Puxa, vida! (como diria uma amiga minha brasileira em casos que tais). E é um arrazoado, sim senhor. E muito oportuno.

Aproveitando este seu tema, de que aliás tenho estado à espera, amanhã ou depois irei deixar aqui mais um exemplo que me faltou quando anteriormente abordei a adopção de vocábulos estrangeiros por toda a gente que fala nas televisões e escreve nos jornais, isto quando se sabe que a completíssima língua portuguesa tem tradução ortográfica para todas as outras línguas vivas.

Ora o uso continuado, extemporâneo e disparatado dos meninos e meninas jornalistas e também políticos, comentadores e personalidades dos diversos quadrantes da sociedade, está errado e todos eles passam por macacos de imitação. Senão repare-se: um/a jornalista proferiu uma vez nas notícias o substantivo DETALHE em lugar de PORMENOR e toda a gente desatou a copiá-lo/a... incorrendo no mesmo exagero de linguagem sem que tal seja necessário ou sequer correcto no discurso falado ou escrito.
Maria
De Bic Laranja a 10 de Outubro de 2019 às 21:42
Obrigado!
«Detalhe» é galicismo, mas poucos se poderão lembrar. Consultei agora o Dicionário Etimológico de José Pedro Machado e diz-me ele que é de 1873 a sua introdução na língua portuguesa. Mas não dá abonos. Hei-de ir ao Corpus do Português procurar o «culpado». Não me admirava que fosse Eça de Queiroz.
«Restaurante» é outro igual e está de tal maneira aclimatado que «casa de pasto» soa até pomposo.
Cumpts.
De Bic Laranja a 10 de Outubro de 2019 às 22:15
Pois o «culpado» é afinal Diogo Ignacio de Pina Manique. O próprio, magistrado e Intendente-Geral da Polícia, logo no ano de 1781. E no séc. XIX Eça lá se apresenta com distinçaõ e a não desmerecer, porquanto tem a companhia de Garrett, Ramalho, Alencar, Euclides da Cunha — o Brasil a acompanhar os bons exemplos, não falhando no caso o belo sexo (ou o igual género, como se apregoa agora) na ilustríssima pessoa da Marquesa de Alorna.
:)
Cumpts.

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