De [s.n.] a 18 de Dezembro de 2014
Desculpe afastar-me do tema, mas antes que passe a oportunidade (e está quase a acontecer, pois já vão uns poucos de dias desde que abordou o assunto:), permito-me deixar aqui uma nota engraçadíssima sobre um actor cujos dois dos seus primeiros filmes passaram recentemente na RTP2, um dos quais mencionou en passant.

Aqui há uns bons anos um familiar trouxe-me dos E.U. um livro auto-biográfico de Errol Flynn. Olhe, ler o que foi o seu início de vida antes de se tornar actor foi do mais cómico, com algo de problemático pelo meio, que as pessoas nem fazem a menor ideia. Ri a bom rir ao ler as peripécias, cada uma mais cómica do que a anterior, por que ele passou até atingir o estrelato, como se dizia.

Ele passou por todos os trabalhos e mais algum para fazer pela vida, desde marinheiro, carregador, moço de recados, camionista, etc. Mas uma das coisas que mais me fez rir foi quando ele arranjou trabalho num rancho qualquer e a 'missão' que lhe estava reservada foi ir tosquiar carneiros..., só que ele não percebia patavina do assunto, nunca tinha visto sequer carneiros ao pé dele! Olhe, ele a contar o modo como se atirou à tarefa é de morrer a rir. Coitados dos bichos que algo terão de certeza penado...

Eu não vi os filmes deste actor na altura, era muito miúda, os meus irmãos mais velhos sim, que os viram, pois tudo o que fosse coboiadas e espadeiradas era certo e sabido que eles lá estavam como espectadores.
Agora, quando há poucas semanas passaram na televisão dois filmes em que ele era o principal protagonista, arranjei paciência para ver pedaços só pela graça e ironia que ele emprestava às personagens, pois remete-me logo para o engraçado que era de facto a sua verdadeira persnalidade. Além de que possuía uma bela figura como actor.

Uma curiosidade, a actriz que com ele participou em vários filmes, Olivia de Havilland, detestáva-o, era demasiado irónico para o seu feitio. O próprio Flynn odiava fazer os filmes d'acção que lhe eram sistemàticamente distribuídos - A Carga da Brigada Ligeira, O Gavião dos Mares, etc. - cujos papéis tinha que aceitar por contrato, já que naquela época estes eram assinados por sete anos e frequentemente renovados para o dobro. Dizia ele que de cada vez que lhe aparecia mais um papel a ter que pegar em espadas sentia náuseas..., mas que remédio..., lá ia ele. Recusar papéis era completamente impensável quando se estava perante os ditames dos produtores-ditadores daqueles tempos, o que estes diziam era lei e ninguém se lhes podia opôr, em Hollywood eles eram reis e senhores.
Só houve uma excepção a estas regras rígidas, de que eu tenha tido conhecimento, muitos anos depois, creio que já nos anos setenta, a de Bette Davies que enfrentou o big boss Jack Warner, recusando-se a terminar um contrato que incluía mais alguns filmes pois achava um tormento continuar a trabalhar para a mesma Produtora passados doze anos, aceitando papéis, muitos dos quais nem sequer do seu agrado, sem poder escolhê-los e/ou poder trabalhar em simultâneo com produtores independentes. O Estúdio pôs-lhe um processo por quebra de contrato, mas ela acabou por ganhar o pleito.

Muitos outros artistas não tiveram a mesma coragem por receio das represálias que não eram pequenas, visto que quem mandava em toda a Hollywood e em todo o pessoal técnico e artístico dependente dos Estúdios, eram os três principais produtores, Mayer, Warner e Goldwin (lembremo-nos o que aconteceu a Marilyn Monroe - e isto já nos fins dos anos sessenta, altura do aparecimento de produtores independentes - por ter abandonado a Warner Brothers e fundado o seu próprio Estúdio), o que alguns fizeram foi, após terminados os contratos de dezenas d'anos, simplesmente não os renovar, abandonarem Hollywood e vindo trabalhar para a Europa, designadamente Inglaterra.

Mas há muitas outras histórias tristes e algumas verdadeiramente dramáticas e mesmo trágicas - não sendo a menor das quais a destruição de carreiras por vingança propositadamente levada a efeito pelos big bosses. Eles próprios diziam para quem os queria ouvir que podiam fazer e desfazer carreiras assim o quisessem.
Sobre os martírios sofridos por dezenas senão centenas de actores e actrizes, directores, guionistas, etc., caso se apresente a oportunidade poderei vir a falar d'alguns.
De Bic Laranja a 18 de Dezembro de 2014
Errol Flynn não só começou assim, como acabou desprezado. Muitas estrelas de cinema também se perderam e perdem na fama. Errol Flynn não escapou. De ser tido por nazi ao apagamento final deve ter passado um turbilhão. Vidas cheias, inúmeras delas. Boas para guião de cinema, paradoxalmente.
Cumpts.
De [s.n.] a 19 de Dezembro de 2014
Sim, tem razão. E ele acabou por ir viver para Espanha, já meio velhote. Foi difamado e vilipendiado pelos produtores de Hollywood..., é preciso lembrar que Errol Flynn era um australiano não judeu... Lá está, a mesma história repetida vezes sem conta, os big bosses a vingarem-se enraivecidos do seu abandono da Meca do Cinema e principalmente pela sua troca dos E.U. pela Europa. Mas isto não só aconteceu com este actor, como disse. Outros e outras mais lhe foram seguindo o exemplo à medida que os anos iam decorrendo e curiosamente todos eles e elas não judeus, salvo uma ou outra excepção que confirma a regra.

O mesmo veio a acontecer por exemplo com outro bom actor, não judeu, Farley Granger (este era anterior aos meus anos de cinéfila e só cheguei a ver alguns dos seus filmes muitos anos mais tarde, dois deles não há muito tempo numa televisão), para citar um só exemplo. Há talvez uns quinze anos ouvi-o num programa radiofónico a partir de Itália - para onde havia ido viver (o verbo mais correcto seria refugiar-se) muitos anos antes e por lá ficou, casou e lá morreu - dizer que Hollywood lhe havia dado cabo da profissão e (eu acrescentaria) da vida. E deu. A ele, ao meu adorado ídolo desde os meus 9 anitos após ter visto o seu primeiro filme, Mario Lanza, que fugiu de Hollywood literalmente vindo viver para Itália com toda a família, por ter sido durante alguns anos, os últimos de vida, muito mal tratado pelos invejosos produtores da sua extraordinária voz, enorme carisma e beleza masculina (e por isto mesmo obscenamente assediado, tal como os outros supra-citados que não surpreendentemente também eram lindos de morrer) e críticos de cinema, todos estes trabalhando para revistas e jornais dirigidos e/ou propriedade de judeus, como o são pràticamente todas e todos nos Estados Unidos. Aconteceu coisa idêntica a Tyrone Power, à Ava Gardner e a Ingrid Bergman (ambas por outros motivos, ainda que, pelo menos em parte, as mesmas razões dos colegas tivessem tido o seu peso nas decisões) e a lista interminável tem-se vindo a perpetuar até aos dias de hoje.
Maria
Comentar:
De
  (moderado)
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Este Blog tem comentários moderados

(moderado)
Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres




O dono deste Blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.