Sexta-feira, 28 de Agosto de 2015

Questões de semântica além da forma

 Peguei no vol. de el-rei D. Fernando da série dos reis de Portugal do Círculo e li três capítulos. Não peguei na crónica de Fernão Lopes da Livraria Civilização por menos trabalho. O português medieval encanta-me, mas justamente por ele dispersar-me-ia. O volumezeco de Rita Costa Gomes (prof.ª dr.ª) é de 2005, mais ligeiro; pareceu-me que havia de ir por ele mais a eito. Ou pensava eu...

  Há décadas que as cousas modernas por cá tendem aos baldões. Sem espanto notei que a onomástica e os topónimos no livro daquela prof.ª da Universidade Nova lhe saíam meios desgarrados. Fernão Lopes é tanto como é, como vem em ser «o cronista Lopes». Aleatòriamente. Estilo hesitante da autora, portanto.
  As personagens históricas ora vêm grafadas em português, ora não, embora a forma escolhida seja ao depois coerentemente continuada pela autora. Assim, D. João Manuel, grande de Castela e pai da rainha D.ª Constança Manuel — a que foi mulher do nosso rei D. Pedro —, é D. Juan Manuel. Mas D.ª Constança nunca é Constanza. Nem em solteira lá em Castela...
  A filha do rei D. Pedro, o Cruel, de Leão e Castela não é Constanza nem Constança; é Costança, mas deve ser gralha.
  Afonso XI de Castela não é Alfonso, mas a sua favorita é Leonor de Guzmán, não de Gusmão. Henrique de Trastâmara (Henrique II de Castela) também não é Enrique, valha-nos...
  João de Gante aparece sempre à portuguesa, o que lhe fica bem, mas é duque de Lancastre em vez de Lencastre.
  Inês — ou D.ª Inês — de Castro é «a Castro», não sei se pela tragédia se por desprezo... Sem porquê, sua irmã é Juana e não Joana de Castro.
 Critérios.

  Nos topónimos reparei que as terras castelhanas tendiam a vir em castelhano (Toro — onde Afonso XI teve prisioneira D.ª Constança Manuel antes de casar com o nosso D. Pedro I —, Ciudad Rodrigo...)
  Cuidei descobrir aqui um certo padrão: o pendor descai no português, salvo se for terra de Castela. Admitem-se excepções.
  Das «cidades prósperas» do «corredor europeu da Europa mais densamente povoada» [?!] como Bruges, Estrasburgo, Colónia, Basileia, Génova e Florença nada aponto ao uso destes topónimos consagrados. Estranha é a referência a «localidades estremenhas como Tomar, Abrantes, Leiria e Alenquer». Nem estremenhas no Ribatejo hão-de ser, incluída ou salva Leiria que não é lá...

  Edições decentes de livros de História, em português e não mui antigas, são já doutro tempo, e eram doutro modo, enfim!... Cuido se lhe punha maior rigor, havia regra de seguir o nosso cânone e a onomástica portuguesa consagrada. Talvez os vocabulários, prontuários &c. se hajam entretanto tornado supérfluos ante o internacionalíssimo novo saber da Academia portuguesa. Vai daí tornarem-se raridade manuseada só por certos bichos do mato.

  E ia em intermitências cogitando nisto através do 2.º ou do 3.º capítulo quando achei a rainha D.ª Beatriz de Castela, mãe de D. Fernando, «em estreita associação com a famosa D.ª Isabel de Aragão sua sogra». E adiante outra vez «D.ª Isabel de Aragão» (*).
  Bem verá o benévolo leitor, a custo, a sogra; trata-se da rainha Santa Isabel, a do milagre das rosas, rainha da paz, mulher de el-rei D. Dinis.
  Ora cá está outro padrão, deste não tenho dúvida: mil vezes falasse a autora na rainha Santa, mil vezes lhe omitiria a santidade, ainda que no-la ensine famosa e... sogra. É o padrão laico, republicano e socialista, o que vigora na Academia.

Rita Costa Gomes, D. Fernando, 1.ª ed., Círculo de Leitores e Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa [ah, pois é Portuguesa, é!], 2005.

 


(*) A tirada completa é D. Beatriz tinha vivido, ela mesma, em estreita associação com a famosa D. Isabel de Aragão sua sogra, da qual parece ter continuado muitas iniciativas e até um certo estilo de intervenção política em situações conflituosas e é, nos sublinhados que lhe ponho, não um certo mas todo um estilo do discurso corrente contemporâneo. O do jornalismo das TV e dos jornais. Ora vede se estreita associação em iniciativas de intervenção política não soa belìssimamente nos telejornais, hem!?...

Escrito com Bic Laranja às 23:02
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7 comentários:
De Bic Laranja a 30 de Agosto de 2015
Não iria tão longe como mandá-la para África. Naturalmente até será de cá.
A dicção valia para a rádio e televisão de antigamente. Agora alardeia-se a origem (e até os maus costumes) com... orgulho... E a apresentação, claro, vai com as modas.
A moça fala à maneira do seu bairro. Dificilmente se perde. Uns falam como alfacinhas de gema, outros como tripeiros disfarçados. Já faltou mais para aparecer aí brasileiro num telejornal. Ou um hipster.
Cumpts.
De [s.n.] a 31 de Agosto de 2015
A minha ideia não era enviá-la para África, longe disso. O que não quer dizer que se fosse para lá perdesse algo com a decisão, antes, seria seguramente bem acolhida pois nota-se que tem capacidade para exercer a profissão e de certeza qualidades inerentes à mesma. Não é verdade que lhe foi atribuído há uns tempos um prémio qualquer por uma reportagem ou documentário de sua autoria, por iniciativa de um político ou de um administrador ou director da televisão em que trabalha?

O que ela necessita é de alguém da sua entourage que saiba da poda ou, caso não exista tal pessoa, de alguém do departamento de estilismo(?) ou guarda-roupa(?) da empresa - que parece já existir em todas as televisões, tal como existem cabeleireiras - precisamente para aconselhar as/os apresentadoras/es, locutoras/es, etc., no modo de se vestirem e pentearem, já que uma apresentação extremamente cuidada, além de um vocabulário irrepreensível e o máximo rigor linguístico, é o mínimo que se exige às pessoas que fazem desta profissão o seu modo de vida. Quanto mais não seja, por respeito para com os telespectadores.
Afinal de contas são estes quem indirectamente lhes paga os ordenados.
Maria
De Bic Laranja a 31 de Agosto de 2015
Ando a treslê-la, peço desculpa.
Compreendo o que diz. Tem razão na falta de rigor ou de cânone na apresentação.
Mas é como as modas vão. Pedir mera formalidade convencional é hoje tido por extravagante. Vivemos num tempo às avessas. O desnorte faz escola. De modo que...
Valha-nos o desabafo. Mais que não seja por desfatio da constante palermice.
Cumpts.

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