Quinta-feira, 25 de Abril de 2019

Leituras

 Não consigo saber quando vi pela primeira vez livros aos quadradinhos. Lá em casa havia alguns destes.

  Interessei-me genuinamente pelo seu conteúdo por altura da 2.ª ou da 3.ª classe (antes disso acho que pensava que serviam para arrancar folhas e testar canetas Bic). Mas só pelos bonecos, as letras ainda davam muito trabalho. Porém, chegado à 4.ª classe lá lia toda a conversa com sotaque inscrita nos balõezinhos.
  Mas o pior estava para vir.
  O meu irmão, que enveredara pela idade do armário, namorava uma moça que decidiu fazer de mim um juvenil. No Natal de 76 recebi deles uma prenda decepcionante:
  — Um… livro?! — balbuciei.
  — É dos Cinco — disse ela. E sorrindo perguntou — conheces?
  — Não.
  — É para leres, ouviste! — disse o autoritário do meu irmão.
  Fiquei aflito. Abri o livro e em quase 100 folhas voando debaixo do meu polegar não vi senão meia dúzia de ilustrações. Era palavreado a mais. Com tão poucos bonecos eu não ia conseguir perceber a história sem ler. Como sabia que eles me perguntariam algo sobre o livro, não tinha remédio senão ler aquilo.
  — Leio um bocadinho por dia — pensei — se me perguntarem, não há muito a dizer.
  No dia de Natal li o primeiro capítulo (e aprendi que o livro se dividia em capítulos).
  — Então, gostas do livro?
  — É… Já li um capítulo.
 Durante quatro dias a cena foi a mesma. Eu aflito e eles percebendo…
 No dia a seguir, que era quarta-feira, os Cinco salvaram o tio e… eu. Fora uma fabulosa aventura por passagens secretas no castelo da ilha Kirrin. Os espiões foram presos e o tio Alberto fez grandes descobertas científicas. E eu tinha acabado o livro!


Enid Blyton, Os cinco salvaram o tio, Lisboa, Emp. Nac. de Publicidade, 1974.

 Quando o meu irmão chegou do namoro perguntei-lhe se a namorada tinha muitos livros dos Cinco.
  — Eu peço-lhe para ela te emprestar os dela — e sorriu. Em 1978 deu Os Cinco na televisão
. .
______
[A recordação — em 8/8/2005, às 10h29 da noite — foi inspirada por isto. — É tornada a recordar hoje, pelo paganismo dos santos dos dias.]

Escrito com Bic Laranja às 11:29
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Quarta-feira, 24 de Abril de 2019

De livros e de feriados nacionais

 Ontem celebrou-se o dia mundial do livro e do direito de autor… Dantes era o dia de S. Jorge. Agora andamos nisto. Enfim!… Amanhã havia de ser o dia de S. Marcos evangelista. Deu no que sabeis.
 Do dia de ontem fizeram os blogos do Sapo evangelho, de acordo com o figurino pagão desta (des)civilização. Amanhã, dia de S. Marcos fá-lo-ão de novo…

O meu primeiro livro, a sério (..., in Flickr)

 Seja.
 O meu primeiro livro, «a sério», como dizem os sapudos promotores de blogos e de dias pagãos — possìvelmente para descartarem os Zés Cariocas ou os Almanaques Disneys que circulavam de mão em mão. — Recordo a «História de Portugal» da Agência portuguesa de Revistas (13.ª ed., Lisboa &c., 1968). Ainda a tenho. Era do meu irmão. Folheava-a e deliciava-me com os bonecos. De tanto folhear e querer descobrir além do que via nas formidáveis ilustrações de Carlos Alberto, comecei a ler as legendas dos cromos. Aprendi muito.


História de Portugal, 15ª ed., Agência Portuguesa de Revistas, Lisboa, &c., 1969, in «Encilopédia de Cromos»História de Portugal, 15ª ed., Agência Portuguesa de Revistas, Lisboa, &c., 1969, in «Encilopédia de Cromos»

História de Portugal, 15.ª ed., Agência Portuguesa de Revistas, Lisboa, &c., 1968.
In Enciclopédia de Cromos…

  Uma colecção de cromos não é um livro «a sério», poder-me-íeis dizer. Supondes que se aprenda mais nos livros «sérios» de História para os [meninos] dos 6 aos 10 editados hoje?…

História de Portugal, 15.ª ed., Agência Portuguesa de Revistas, Lisboa, &c., 1968. In Enciclopédia de Cromos…

 Amanhã, dia de S. Marcos, diz que é feriado em todo o país por uma razão parva qualquer. Pode ser, mas só na metrópole e ilhas adjacentes. No Ultramar não.


(Revisto no dia de S. Marcos do ano 19, às 11h00 da manhã.)

Escrito com Bic Laranja às 22:30
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Domingo, 30 de Abril de 2017

Ainda Salazar, por Franco Nogueira, e a imprensa livre

 Conto uma história.
 O vol. II foi-me gentilmente oferecido pelo meu estimado amigo, o Sr. A. Fernandes. Adquiri o vol. I num OLX qualquer por menos dum conto de réis. Ambos usados, mas em bom estado. O caso foi ficando assim até que me resolvi a comprar os restantes; negociei-os em conjunto, ficando-me
cada um pouco mais ou menos pela conta do outro que comprara. Sucede que estes últimos quatro, embora inteiros, vinham com a cabeça e a lombada tão, mas tão amarelecida do pó, e deitando tal cheiro, que me cheirou o caso a décadas de armazém. Desconfio que foram comprados de propósito para armazenar e deixar esquecer, numa habilidade porventura concertada de os subtrair ao público. Isto explica-me a raridade de certas edições incómodas, como esta — ou aqueloutra do livro de Rui Mateus (*), com 3 tiragens só no ano de 96, salvo erro, e cujos volumes se quase evaporaram.
 Coisas da democracia, certamente por culpa do salazarismo.
 Resolvi-me encaderná-los por causa do estado pior daqueles vols. III-VI. Entretando já estão mais arejados...

F. Nogueira, «Salazar», Atlântida/Civilização, Coimbra/Porto, 1977-85.

 


(*) Rui Mateus, Memórias de um P.S. Desconhecido, Lisboa, Dom Quixote, 1996, proposto para abateindisponível, ou desaparecido das bibliotecas de Lisboa. Um que se ache talvez esteja convenientemente emprestado; podemos esperançosamente aguardar que o devolvam...

Escrito com Bic Laranja às 09:59
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Sexta-feira, 28 de Abril de 2017

Salazar, por Franco Nogueira

« Termino com este sexto volume a biografia de Oliveira Salazar. Na portada do primeiro tomo, afirmei o propósito de isenção, serenidade, frieza e recusa a elogio e vitupério. Quanto humanamente viável, penso que o consegui. Creio que não terei agradado aos fanáticos de sinais opostos: para uns, não afirmei com suficiência a grandeza do homem; para outros, não fiz sobressair as suas sombras o bastante. Mas em verdade eram outros os meus desígnios: aproveitar os documentos, descrever os factos, intervir nas fontes o menos possível [...] Figura de muitos ângulos, com traços contraditórios e sempre vincados, de características extremadas, Salazar presta-se a muitas versões, a muitos retratos, e todos verdadeiros ainda que falsos se incompletos. Ao erguer uma biografia daquele homem, que poderia perguntar-se às fontes disponíveis? Era um homem com força de vontade inquebrantável? Era lúcido, inteligente? Era honesto, incorruptível? Era duro, autoritário? Era vaidoso, arrogante? Era frio, insensível? Era nervoso, emotivo? Era ambicioso, amante do poder? Era bom português, patriota? Todas estas perguntas se poderiam formular, e mil outras; há elementos para lhes responder, e documentação para comprovar as respostas. Seria viável escrever uma biografia que seleccionasse algum daqueles traços, e o transformasse no tema central. Seria viável; mas não seria intelectualmente e historicamente honesto. Será isso, no entanto, que pretendem os fanáticos a que aludi. Para uns, basta descrever um Salazar desumanizado, provido de todas as perfeições; para outros, se não se afirmar que Salazar foi um criminoso ou apenas um autoritário, não se está a compor uma obra exacta. Rejeitei as duas atitudes, procurei investigar [...] Alguns criticaram os volumes precedentes porque, da sua leitura, o leitor desprevenido poderia concluir que o biografado fora um homem de génio, e portanto eu estava sendo parcial, ou faccioso. Ora a verdade é esta: Oliveira Salazar foi um homem de génio. «Não é popular afirmá-lo», escreveu um jornalista de extrema-esquerda, «mas foi-o». Enquanto não se aceitar esta realidade, nenhuma biografia daquele vulto político será possível, e é este ponto que muitos não sofrem reconhecer ou admitir, sendo levados a exigir uma biografia de Salazar necessariamente e exclusivamente demolidora. Desde que o não seja, pensam que não é isenta e que é unilateral. Mas do facto de ter sido um homem de génio não se segue que haja sido um intocável, um divino, um santo, e há que aceitar também esta realidade, porque de outro modo continua a não ser viável uma biografia, salvo se esta se confinar ao panegírico hagiológico. No mais, e quanto aos cinco volumes já publicados, ninguém impugnou um documento e a sua interpretação, ninguém contestou um facto e a sua relevância.

  Outro equívoco importa destruir: afirmar a genialidade de Salazar não implica compromisso político ou ideológico; é um acto de inteligência, que não traduz adesão a princípios, ainda que lúcida e independente, e muito menos devoção embevecida sem atitude crítica. Salvo excepções, para muitos políticos portugueses, todavia, negar hoje o mérito pessoal de Salazar (o que é diferente de negar o Salazarismo) tornou-se um expediente e um imperativo ou uma obsessão, parecendo que sentem terror de uma sombra que se diria esmagá-los, ou de uma comparação ou paralelo que se diria diminuí-los; mas esses, quase clandestinamente, não têm deixado de se debruçar sobre a vida e a figura de Salazar na ânsia de descobrir o segredo e a receita da sua longa permanência no poder. No fundo, sentem avidez de mando, pouco democrática, e que parece julgarem ser-lhes inerente; e desejariam saber como exercer esse mando a título vitalício, e sem restrições. Ao fim e ao cabo, têm ânimo de ditadores, sem espírito de servir nem de sacrifício, com gosto pelo exercício pessoal de um poder arbitrário e discricionário, que não estava nas coordenadas de Salazar. Simplesmente o génio não se transmite por herança nem é susceptível de cópia; e os imitadores são epígonos, a situar no limbo da história.»

Franco Nogueira, Salazar; O Último Combate (1964-1970), Civilização, Porto, 1985, pp. XI-XIII.

Franco Nogueira, «Salazar», Atlântida/Civilização, 1977-85.

Escrito com Bic Laranja às 22:00
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